segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

LESLIE FLINT – A MINHA VIDA DE MÉDIUM





Leslie Flint
VOZES NO ESCURO - MINHA VIDA COMO MÉDIUM
Leslie Flint veio a este mundo em 1911 e partiu em 1994. Enquanto aqui permaneceu, tornou-se num instrumento afinado na transmissão de milhares de mensagens provenientes do mundo que agora habita. Um homem de fala aberta, nasceu na pobreza e foi criado em meio à desordem familiar. No entanto, através de obstinada determinação e decisão, ele tornou-se num dos mais célebres médiuns independentes de voz directa do século vinte.
Por intermédio do seu notável dom, ele trouxe consolo e esperança aos enlutados e compreensão e inspiração a milhares, assim como derramou luz sobre muitos cantos estranhos da história.
Este relato foi inicialmente publicado em 1971. Depois disso foi estabelecida a Leslie Flint Educacional Trust para preservar, registar e autenticar o trabalho da vida de Leslie mais os vastos esforços que fez pela educação. Felizmente, hoje o público encontra-se mais aberto e receptivo para a realidade do mundo do espírito, e compreende mais o elo crucial existente entre este mundo e o seguinte na interminável cadeia da vida humana.
Com o advento de Mickey, o seu muito amado alter-ego de sotaque Cockney (Londrino) no mundo do além, tiveram início décadas de serviço como médium de voz directa. Leslie proporcionou sessões a gente e todas as posições, e de todas as profissões, permitindo que os enlutados tivessem conhecimento da grande verdade da sobrevivência humana para além da morte física. A sua mediunidade foi igualmente canal para mulheres e homens famosos cujas comunicações espirituais se deram num plano elevado de inspiração, muita vez lançando uma nova luz fascinante nos anais aceites da história
Céticos assistiram às sessões, mas partiram convencidos. Outros testaram a autenticidade de Leslie por todas as formas possíveis. Em verdade ele poderá comentar ter sido o médium mais testado que a nação que o viu nascer alguma vez produziu. Vieram pessoas de todo o mundo tomar parte nas suas sessões. Leslie também fez demonstrações no estrangeiro, em particular nos Estados Unidos, onde chegou a ser alvo de enorme demanda.
O capítulo final da sua vida veio com o seu retiro para Hove onde desfrutou de alguns anos de paz e felicidade antes de falecer com a idade de 83 anos. Leslie reconhecia não possuir educação de que pudesse falar, contudo, palavras da mais elevada sabedoria e profundo conhecimento, muita vez numa variedade de línguas, emergiam nas sessões. Ele era um homem simples e de verticalidade dotado de pouca ambição ou percepção financeira, mas o serviço que rendeu à humanidade foi de um valor inestimável. Foram-lhe redigidas cartas de muitos países a expressar-lhe não só gratidão e amizade como amor e afecto.
Enquanto grande parte do trabalho afunda ainda mais no pântano do materialismo, comercialização e tribalismo, é agora mais importante que nunca que o homem aprenda a valorizar a realidade espiritual do mundo, a sobrevivência da alma, a importância das boas obras e dos bons pensamentos para preparar o caminho em frente, independentemente da cor ou credo, por sermos todos seres espirituais que nos expressamos em termos físicos.
Leslie Flint demonstrou uma rara dedicação ao seu chamado como significativa via na ligação de dois mundos.
Do Prefácio da Obra Autobiográfica “Vozes no Escuro: A Minha Vida de Médium.”
EXCERTOS
Certa noite enquanto o nosso círculo se encontrava reunido numa noite não habitual, sucedeu algo que me convenceu além de toda a dúvida de que eu tinha tomado a decisão certa. Encontrávamo-nos seis de nós sentados juntos no sossego da escuridão quando a voz de um homem começou a falar-nos numa língua estrangeira. Prestamos-lhe atenção porém, sem entendermos uma palavra. Por fim a Edith aventurou-se d forma empírica a comentar: 'Não estou certa, mas creio que deva ser Italiano.'
"Si, signora," disse a voz do espírito, "o Italiano foi a minha língua nativa quando estive na terra mas eu conheci algum Inglês também, língua em que passarei a falar de modo que compreendam. O meu nome foi Valentino, e vim aqui esta noite para dizer como me encontro feliz por este jovem ter finalmente aceite o caminho de vida que precisa trilhar e quero dizer-lhe que um dia, quando for um médium famoso, ele fará uma sessão no compartimento que me serviu de quarto na casa que tive em Hollywood e que eu virei falar por intermédio dele quando o fizer."
Por muito tempo que viva, seja o que for quem e reste desfrutar, nada poderá alguma vez igualar o entusiasmo do primeiro serviço que fiz na minha própria Igreja. Toda plateia se encontrava apinhada e os atrasados amontoaram-se nas traseiras do compartimento. Eu fui submetido a um transe para o discurso e a clarividência e quando regressei ao estado consciente a sensação de alegria e de leveza que experimentei nesse compartimento apinhado foi indescritível, e as semanas de trabalho árduo, a poupança e as ansiedades, tudo isso valeu a pena.
Prosseguimos conforme tínhamos começado e em breve tivemos que comprar mais cadeiras enquanto ainda estávamos a pagar as prestações do primeiro conjunto. Escusado será dizer que a segunda compra foi igualmente por prestações suaves, a despeito da multidão que veio à Missão, embora em grande parte fosse gente que estava tão lisa quanto eu, e dificilmente havia mais do que o suficiente nas recolhas que fizemos nos serviços para pagar a renda, a luz, o aquecimento e as prestações de dois conjuntos de cadeiras. Para as despesas da minha própria vida eu dependia das sessões privadas de voz directa que eu dava uma vez por semana na sala de estar da casa do concelho pelas quais cobrava um guinéu por cada casal.
Eu queria que aqueles que não podiam assistir às sessões privadas, quer porque não pudessem pagar ou porque estivessem a trabalhar durante o período em que as dava, passassem por essa experiência que, de todas as formas de mediunidade, fornece a prova mais convincente da sobrevivência do homem à morte do corpo, de modo que a Edith e u decidimos fazer o que chamamos um Círculo Aberto após o nosso serviço do costume das quartas à noite. Quando o serviço terminava e a congregação se tinha dispersado para os seus lares, algumas das pessoas que tinham reservado um assento por dois xelins ficavam para trás e nós permanecíamos às escuras e aqueles a quem o mundo refere como mortos vinham e conversavam connosco.
A minha mediunidade de voz a essa altura encontrava-se quase desenvolvida em pleno e mais frequentemente eu permanecia plenamente consciente durante essas sessões de grupo e necessariamente tinha que escutar tudo quanto era dito tanto por parte do círculo dos membros dos vivos como dos seus amigos e parentes provenientes do outro lado da vida. Por vezes a conversa que se verificava entre eles era tão íntima e carregada de emoção que eu me sentia como um espião. Em certa ocasião a voz de um homem disse que queria falar com o filho George e foi respondida por um homem presente no círculo.
O pai desencarnado continuou repreendendo o filho vivo pelas suas extravagâncias e implorou-lhe que cortasse ao vício da bebida e para ser mais amável e atencioso em relação à Anne. Quando o círculo encerrou e as pessoas saiam para as suas casas uma senhora e um cavalheiro ficaram para trás para falar comigo. O homem apresentou-se e eu fiquei a saber que era um director de cinema famoso. Disse-me estar plenamente convencido de ter estado a falar com o seu pai falecido não só por mais ninguém no mundo o ter alguma vez tratado por George, que não era o seu nome de baptismo, mas por o conteúdo da pequena preleção e os maneirismos da fala serem típicos do seu pai em vida. Adiantando-se juntamente com a senhora dele, apresentou-me à sua esposa, Anne.
Numa outra dessas reuniões de círculo aberto de quarta-feira, após diversos amigos e parentes terem falado da forma habitual escutamos a voz de uma mulher que tentava dirigir-se-nos por uma forma incerta em que por vezes as novas comunicações se manifestavam. Eventualmente a sua voz tornou-se mais forte embora parecesse aflita. Ela disse-nos que era Lucy Doris Covell que tinha vivido na Rua St Albans, Watford, e que fora uma secretária que fora assassinada cujo corpo ainda não tinha aparecido. A voz dela foi-se tornando enfraquecida e uma das entidades que me orientava do outro lado veio revelar-nos que a moça se encontrava aflita por causa da forma como passara e muito preocupada com o homem que tinha matado que era seu amante e menos desejosa de culpar pelo sucedido do que ela própria se sentia culpada. Naturalmente que procuramos nos jornais locais após a sessão a ver se os factos que a moça tinha dado sobre ela própria se poderiam verificar e somente uns dias mais tarde ficamos a saber que o corpo da moça tinha sido descoberto e que o homem com quem tinha vivido tinha desaparecido.
Na nossa reunião seguinte a moça assassinada voltou para falar connosco e embora se encontrasse mais calma ainda se notava a preocupação com respeito ao amante, que ainda não tinha sido encontrado pela polícia. Contou-nos que na noite do seu assassinato o seu amante tinha ficado fora de si e que quando voltara a casa, de madrugada, a acordara e que tinham tido uma discussão acesa. Ela tinha dito coisas amargas num estado de cólera que o aguilhoaram além da resistência e que ele a atacara com a bomba da bicicleta que tinha na mão. Ele não tivera qualquer intenção de lhe provocar qualquer dano grave mas devido a que padecesse de uma anormalidade física, o golpe matara-a. Por o amante se sentir aterrado quanto à possibilidade de ninguém crer nele, insensatamente deitara a fugir. A moça disse que a polícia o encontraria sentado num parque local a manusear abstraído um pedaço de corda enquanto ganhava coragem para pôr fim à própria vida.
Um dia mais ou menos mais tarde lemos no jornal que o homem tinha sido encontrado e preso da forma que a moça tinha descrito. Foi levado a tribunal sob a acusação de assassinato, mas durante o julgamento a moça voltou para falar diversas vezes. De cada vez que veio contou-nos com toda a confiança que o seu amante não seria dado como culpado, que a acusação seria reduzida de assassínio para a de homicídio involuntário e que ele seria sentenciado com cinco anos de prisão, e com efeito foi isso que sucedeu. Dado que o amante pode muito bem estar vivo e ter pago o débito que contraíra contra a sociedade há muito tempo, não seria justo reabrir um assunto que deverá ter-lhe causado um enorme sofrimento mencionando aqui o seu nome, mas deve haver muita gente em Watford que recordará as sessões em que a moça morta narrou a sua história, e a história da sua morte e do julgamento do seu amante foram amplamente noticiadas no jornal local da altura.
Numa outra noite de ouro dos meus círculos abertos uma mulher proveniente do outro lado da vida falou a um homem que se encontrava sentado no grupo e disse ser a sua primeira esposa que tinha morrido num incêndio que deflagrara na sua fábrica. Ela disse que queria que ele soubesse o quão feliz se sentia por ele ter voltado a casar com a sua irmã mais nova e que estava encantado por terem desfrutado tanto da sua lua-de-mel no Brasil. Esse homem ficou para o fim, e após a sessão veio dar-me conta do como se encontrava impressionado com a demonstração que testemunhara da minha mediunidade e para me perguntar se me poderia falar em privado sobre uma questão de enorme importância. Eu concordei em acompanhá-lo até um café próximo onde conversaríamos ao sabor de um café.
No café fiquei a saber que o meu amigo era Noah Zerdin, um dos fundadores e actualmente o director da Associação Link dos Círculos Caseiros. O objectivo dessa organização passava por reunir tantos membros quanto possível dos círculos Espiritualistas espalhados pelo mundo para trocarem experiências que tivessem tido nas suas reuniões e para fornecer um ponto de encontro comum para gente de interesse semelhante.
Eu tinha interesse em ouvir sobre o seu trabalho mas sentei-me num lanço na minha cadeira de café quando ele me perguntou se eu tinha noção do risco que corria toda a vez que dava uma sessão no círculo aberto para a voz directa. Suponho que terei parecido tão incrédulo quanto me senti, porque o Sr. Zerdin prosseguiu explicando-me o perigo que representava permitir que qualquer transeunte das ruas viesse assistir a essas sessões. Disse-me que nessas ocasiões se exsudava de mim uma força vital chamada ectoplasma por meio do qual as vozes dos espíritos das pessoas se podiam manifestar, e que se alguma pessoa do círculo por malícia ou mera curiosidade me dirigisse um foco de luz luminoso essa força nervosa recuaria com tal violência que na melhor das hipóteses me provocaria um choque violento, e na pior, hemorragias internas e a morte. Eu fiquei boquiaberto, por simplesmente não conseguir crer que alguém que estivesse a ser confortado por intermédio da minha mediunidade me quisesse prejudicar. Mas o Sr. Zerdin asseverou-me que sempre haveria quem duvidasse da genuinidade do fenómeno e considerasse estar a agir no interesse dos outros se pudesse expor algum médium cujos poderes atraíssem algum séquito.
Eu protestei apelando ao senso comum e dizendo que me seria impossível conhecer os detalhes íntimos da vida de cada um daqueles a quem as vozes se dirigiam, e que tão pouco por forma alguma eu poderia falar nas centenas de acentos, tanto masculinos quanto femininos em que as vozes eram escutadas nas sessões. Mas o Sr. Zerdin persistiu em prevenir-me de que muita gente era profundamente preconceituosa em relação ao fenómeno do Espiritualismo, quer devido ao fanatismo religioso ou por causa das convicções intelectuais de natureza niilista, e que essa gente acolheria de bom grado qualquer oportunidade de gerar agitação nas sessões como as minhas e não teria a menor contemplação com respeito aos possíveis danos que pudessem causar ao médium, mesmo que estivessem suficientemente inteirados do assunto para terem ideia do prejuízo que poderiam causar. O sr. Zerdin prosseguiu dizendo-me que a mediunidade como a minha era tão rara que eu precisava resguardá-la, valorizá-la, protegê-la de modo que tantos quanto possível pudessem ser abençoados com ela...
Uma certa tarde eu encontrava-me à janela da sala de estar da Edith à procura de uma senhora Miss M. Tucker que tinha marcado uma sessão comigo por carta. De repente os meus olhos saltaram-me da cara ante a visão de um imaculado Rolls Royce que parou junto à nossa casa e um chauffeur elegante abriu a porta a uma senhora que presumi ser a Sr. Tucker. Carros como esse dificilmente se viam em quantidade no nosso bairro, e o avanço que fez até à nossa porta foi seguido com apaixonado interesse pelos vizinhos que assomavam à porta ou que espeitavam por trás das cortinas. Eu abri a porta assim que a campainha tocou para ver que a senhora era de facto a Srª. Tucker, e ela acabou por se revelar uma pessoa encantadora sem nenhuns dos ares ou actos de desdém que eu receara que o dono de tal carro esplêndido pudesse ter.
Eu guiei-a até à sala de estar e quando ela se sentou confortavelmente eu desliguei a luz e a sessão teve início. Após uns minutos, o sotaque londrino da voz do Mickey, o auxiliar espiritual que actua como mestre-de-cerimónias nas minhas sessões, saudou a senhora e disse-lhe que ia ajudar a mãe e a irmã a falar com ela. Ele era tão bom quanto a sua palavra e dentro de pouco tempo a Srª Tucker estava a ter uma conversa íntima a apaixonada com a falecida mãe e a falecida irmã. Quando esses dois espíritos disseram adeus, ouvimos a voz de um homem que se anunciou como Edison, e que exigiu saber por que razão a senhora não tinha trazido o Louis com ela. Eles tiveram uma curta conversa e a Srª Tucker prometeu trazer o Louis com ela na semana seguinte caso o médium lhe marcasse outra sessão. Naturalmente que fiquei encantado ao saber disso.
À hora marcada da semana seguinte, o enorme Rolls Royce parou à porta da nossa casa e a Srª Tucker saiu acompanhada por um homem idoso. Ele era baixo, tinha o rosto corado e tinha um aspecto alegre e usava um monóculo. Eu abri-lhes a porta e a Miss Tucker apresentou-me o alegre homem pequeno como Sr. Louis e nós dirigimo-nos para a sala de estar para a sessão.
A mãe da Srª Tucker falou com ela durante um curto período enquanto o Mickey lhe disse que os seus outros parentes queridos ficariam de lado nessa ocasião, por o Sr. Edison estar ansioso por falar a Louis. Dentro de pouco tempo a voz masculina que tínhamos escutado na sessão anterior foi ouvida. "Thomas?" disse o homem pequeno, "Thomas quem?"
"Não me conheces. Louis? É o Thomas Alva Edison que te está a falar," disse a voz. "Não te recordas de quando estivemos juntos nos Estados Unidos? Decerto não esqueceste como trabalhamos juntos e nos esforçamos por inventar coisas, esqueceste?" Agora o pequeno homem saudou vivamente o espírito que chamara a si próprio Thomas Alva Edison e seguiu-se uma fascinante conversa entre eles que não consegui evitar ouvir. Falaram sobre os tempos que desfrutaram juntos no passado e as pessoas que ambos tinham conhecido. Ouvi-os referirem-se mais do que uma vez a Houdini, que mais tarde vim a descobrir ter sido um famoso escapalogista e ilusionista que certa vez se atirara a si próprio às cataratas do Niagara atado a uma corrente num barril. Eles falaram sobre Maskelyne e Devant (mágicos) que, segundo o desencarnado Edison tinham um espectáculo regular no Hall de São George na virada do século. Eu escutei cativo à conversa que tiveram embora a maior parte daqueles de quem falaram me fossem desconhecidos e só viesse a descobrir mais tarde quem tinham sido e o que tinham feito.
Quando a sessão terminou e acendemos as luzes, a Miss Tucker confessou-me que o homem que me tinha apresentado como Mr. Louis era na verdade o seu marido. O Dr. Louis Young, e que tinha sido muito amigo de Edison nos EUA durante os anos oitenta e noventa do século anterior. Disse-me que Tucker era o seu nome de solteira, que ainda usava nos negócios, a Companhia de Fabricação Tucker em Harlesden, mas que me induzira deliberadamente em erro quanto aos seus nomes reais de modo que se surgisse alguma prova disso pudesse ter maior valor. O Dr. Young disse-me que tinha comparecido às sessões de muitos médiuns tanto neste país como na América, mas que as provas que obtivera nesse dia tinham sido irrefutavelmente as melhores que alguma vez tinha recebido. Por ter descoberto muitos truques e ilusões da parte de Devant e Maskelyne nos velhos dias, isso tinha-o deixado susceptível a fraudes, mas após falar com o seu velho amigo e ter partilhado com ele as memórias conjuntas foi incapaz de duvidar de ter estado a conversar com o próprio Thomas Alva Edison.
Recordo-me de um grupo arranjado pelo Reverendo Drayton Thomas, que era um dos membros principais do The Confraternity (Confraria). Dray, conforme o tratávamos, tinha escolhido o seu grupo com cuidado, fazendo uso do ponto de entrada a necessidade espiritual, e eu era o médium que ele elegeu para participar com eles.
Antes de Dray apagar as luzes na sala de sessões deixei que os meus olhos passassem pelos rostos do seu grupo. Estou tão familiarizado com a pobreza que podia ter a certeza de que essa gente era muito pobre e orei para que pudesse ser usado de modo a trazer-lhes conforto e qualquer ajuda possível a cada indivíduo que pudesse precisar dela.
Assim que as luzes se apagaram Mickey falou quase imediatamente e trouxe diversos amigos e parentes a fim de provar a continuidade da existência. A sessão estava quase no final quando uma voz de homem chamou por “Annie Blyth”, Uma mulher no grupo admitiu ser Annie Blyth e perguntou algo desconfiada: “Quem é você?” ‘Eu sou Fred Blyth,’ respondeu o espírito. ‘Eu não fui bom para ti quando estive na terra, Annie, e vim para te dizer o quanto lamento e para te pedir perdão.’
“Bom,” disse a Annie, com considerável ardor, “bem que podes ir para o diabo uma vez mais. Eu já tive a minha dose quando aqui estiveste, tu que foste um tratante de um marido. O que te digo é que vás lá para o diabo!”
A voz do desafortunado do Fred desvaneceu-se na confusão e Mickey regressou para rogar à recalcitrante Annie para perdoar o marido que estava verdadeiramente arrependido pelo comportamento que tivera na Terra. Embora lhe tenha implorado por ele, e lhe tenha dado conta da agonia e remorso que o Fred sentia e pelo anseio que sentia por uma pequena palavra de perdão, Annie recusou-se a demover-se e a sessão foi encerrada.
Um dia o padre Sharp trouxe uma senhora idosa a uma das sessões de grupo sem me dizer quem ela era nem nada que se relacionasse com ela, prática que invariavelmente o caracterizava. Após termos estado sentados durante uns minutos, apareceu o Mickey para dizer que um homem chamado Alex se encontrava presente que queria falar com a ‘nova senhora’, e em breve uma voz forte chamou: “Julia! Julia!” A senhora nova respondeu e o homem continuou: “Sou o Alex, o teu pai, e estou aqui com a Emily, a tua mãe. Viemos juntos para te falar. Nós tivemos as nossas divergências quando estivemos do teu lado da vida, grande parte culpa minha, mas agora compreendemo-nos mutuamente mais. Desejaria ter agido de modo diferente na terra mas aqui está a Mãe para te falar.”
Uma voz feminina cultivada falou de seguida: Olá Julia querida, é a Mãe. Tenho olhado por ti todos estes anos. Trouxe o Fred e o Dennis e espero que sejam capazes de falar contigo dentro de instantes.”
Quando a voz dessa senhora se desvaneceu, um homem anunciou-se como Fred e pela conversa que teve lugar entre ele e a jovem senhora percebi que era Fred Terry, o famoso actor e gerente, e que a senhora jovem era a sua esposa. Isso disse-me que ela era Julia Neilson Terry, a bem conhecida e charmosa actriz. Quando Fred Terry se despediu, Dennis Neilson Terry falou e enviou o seu amor à irmã e às suas duas filhas, Hazel e Monica. Ele pediu à mãe para voltar a falar-lhe e para tenta trazer Phyllis. Mesmo antes de a sessão terminar Fred Terry regressou para dizer que a sua irmã Nell queria dizer umas palavras Então Ellen Terry falou naquela dicção suave e bela que mais tarde viemos a conhecer bem nos nossos grupos quando ela se tornou numa das transmissores regulares e muito bem-vindos. Mesmo agora ela vem falar aos membros da profissão do teatro quando eles comparecem às minhas sessões.
Uma bela tarde eu aguardava que duas senhoras aparecessem a um compromisso que tinha sido marcado por telefone em nome de Srª Brown e do Sr. Smith. Eu pensava um tanto ironicamente que elas deviam ter mostrado um pouco mais de imaginação na escolha do pseudónimo; a banalidade deles deixava antever a desconfiança que as senhoras tinham de mim. Eu tinha aprendido às minhas custas a ser filosófico com relação a atitudes que as pessoas adoptavam em relação a mim. Havia quem de forma pouco lisonjeira se deixava surpreender ao descobrir que eu era um homem comum, e não estranho nem assustador. Outros deixavam bem claro que o único propósito que tinham em participar nas minhas sessões era descobrir que truque eu empregava a fim de produzir as vozes. Outro por seu turno tentavam colocar-me num pedestal, preparados para me adorar. Inicialmente magoava-me profundamente ser alvo de suspeita de charlatanismo, eu sentia-me tão cheio de espanto pelo dom que tinha, tão insistente no desejo de ajudar e de confortar todos quantos de mim necessitassem, que sentia ser uma bofetada na cara sempre que pressentia a suspeita de descrédito. Mas agora sentia-me serenamente confiante na minha mediunidade naqueles que me guiavam e me ajudavam do outro lado da vida e ninguém poderia magoar-me nem incomodar-me.
Quando as senhoras chegaram eu cumprimentei-as com simpatia e mostrei-lhe a sala das sessões. Encontravam-se ambas na meia-idade tardia e vestiam de forma inteligente mas discreta. Após uma curta espera Mickey deu-lhes a sua alegre saudação e depois deu lugar a um homem que anunciou ser Alec. Uma das mulheres respondeu perguntando pelo sobrenome dele e a entidade disse chamar-se Alec Holden. Teve lugar uma animada conversa entre Alec e a senhora que lhe tinha respondido. Ela parecia ser a viúva de Alec Holden e que a amiga que estava com ela ocupava alguma posição de enorme confiança, mas qual não ficara claro. Antes de Alec Holden se despedir disse que alguém que em vida tinha sido um personagem importante iria falar-lhes. Assim que a voz de Alex se desvaneceu, a voz de um idoso foi ouvida a tentar fazer-se entender mas obviamente estava a ter dificuldade em consegui-lo. Passado um bocado a voz ficou mais forte e mais clara e quem quer que fosse disse o quanto era agradável voltar a falar às senhoras. A essa altura fiquei surpreendido por ouvir as senhoras a afastar as cadeiras e a arrastar os pés. Eu simplesmente não conseguia imaginar o que elas estivessem a fazer. Fiquei ainda mais desconcertado quando em tom de profundo respeito ambas disseram em uníssono: “Sua Majestade!” Ao que a voz respondeu: “Sim, sou o George, que ficou conhecido na Terra como Rei George V.” Seguiu-se uma conversa entre essa entidade e as minhas convidadas. Ele enviou o seu afecto a May e a Louise e a sua bênção aos filhos antes da sua voz se desvanecer.
Depois a Srª Holden e a sua amiga deram-se-me a conhecer e revelaram que estiveram ligadas à Casa Real durante muitos anos e que tinham reconhecido a voz do falecido Rei assim que ele conseguiu anunciar-se com clareza. Elas alegaram que a voz era inconfundivelmente a do falecido Rei e que o reconhecimento levara ambas a levantar-se automaticamente das cadeiras e a fazer uma reverência assim que o ouviram. Perguntaram se podiam voltar e trazer um amigo cujo nome preferiam não revelar. Eu concordei em marcar-lhes outra sessão nesses termos.
Da vez seguinte em que vieram trouxeram com elas um homem alto e de aspecto muito digno que ansiosamente me perguntou se a Srª Holden me tinha forçado o desejo que tinha de permanecer anónimo. Eu tranquilizei-o mas precisei preveni-lo de que muitas vezes quando os participantes davam passos para permanecer no anonimato o meu guia Michey as cumprimentava pelo nome assim que chegasse.
Contudo, não foi o Mickey quem revelou o segredo nessa ocasião, mas uma mulher do outro lado da vida que chamou ‘James! Como estás, James? Eu sou, ou melhor, fui a Condessa Camperdown.’ Essa voz desvaneceu-se e foi seguida por um homem que falou com um sotaque Escocês. Ele apresentou-se como John Brown e disse-nos que tinha sido o servo de confiança da Rainha Vitoria e que também tinha agido como médium na comunicação com o seu amado marido o Príncipe Albert durante a sua viuvez. Ele prosseguiu dizendo que ia ajudar a Senhora Camperdown a voltar a falar por ela ter sido uma amiga da sua Madame e James tinha-a servido fielmente como tinha servido à Rainha Vitoria. A voz da senhora regressou e foi ouvida a perguntar a James se ele se lembrava dos velhos dias em Weston e da casa de Hill Street. Após mais uma conversa entre eles a voz da senhora desapareceu e a sessão terminou.
Quando a luz foi acesa, o homem, dominado por completo pelo que tinha ouvido, abriu mão do anonimato e apresentou-se como John James. Disse-me que tinha sido um lacaio ao serviço da Condessa Camperdown muitos anos antes, quando fora jovem. Ele tinha-a servido tanto na propriedade rural, Weston in Warwickshire, como na sua casa da cidade, em Hill Steer, Mayfair. Desde a morte da Senhora Camperdown ele tinha servido diversas casas daqueles a quem o mundo chama grandes e na altura servia, e já há muito anos, como mordomo de casa de Sua Alteza Real a Princesa Louise no Palácio de Kensington.
A Princesa Louise era a quarta filha da Rainha Vitoria e o sexto filho e tinha então quase noventa anos de idade. O Sr. James ficou tão impressionado com a prova que lhe fora dada que pediu se poderia marcar uma sessão regular comigo de vez em quando e ali mesmo fiz-lhe uma marcação mensal. Quando o imponente Sr. James me concedeu a chancela da sua aprovação, a Srª Holden confiou-me que tinha sido, há uma boa quantidade de anos dama de companhia da Princesa Louise.
John James nasceu numa aldeia de montanha no País de Gales em 1872 e já se encontrava na casa dos sessenta quando nos conhecemos. Toda a sua vida fora gasta ao serviço de outros mais privilegiados que ele, mas não transparecia qualquer ressentimento do verdadeiro servil neste homem Ele possuía uma verdadeira dignidade e uma grande integridade. Era um homem que sabia exactamente quem era. Esperava elevados padrões de conduta pessoal daqueles que servira e caso se mostrassem indignos do seu respeito ele deixava de os servir. Para aqueles que o granjeavam ele dedicava toda a sua lealdade e toda a sua devoção não só pelos salários ou os pré-requisitos que lhe poderiam vir ao encontro mas simplesmente porque ele era um homem incapaz de menos do que o seu melhor.
James tornou-se muito importante na minha vida porque por intermédio dele conheci muita gente interessante de ambos os lados da vida. Eu costumava esperar ansiosamente pelas marcações dele, imaginando qual dos que certa vez foram altos e poderosos viria falar com ele. A Rainha Vitória veio com frequência e enviava mensagens de amor à filha Louise e aos vários outros membros da Família. Invariavelmente, nas mensagens que endereçava à Princesa Louise ela dava algum pequeno detalhe insignificante ou recordar alguma lembrança da infância da Princesa de modo que quando James lhe remeteu a mensagem ela soubesse que era verdadeiramente a sua mãe quem tinha falado.
Numa certa ocasião a Rainha Vitória agradeceu a James a cura que ele lhe tinha feito à filha e mais tarde vim a saber que ele era um curador espiritual natural e que fora muita vez capaz de aliviar a dor aguda da artrite de que a Princesa Louise sofria.
Numa das sessões de James veio um homem e deu o nome de John Sutherland. Enviou o seu amor a Louise e pediu a James para lhe dizer que tinha a sua cadela Tina com ele. Após a sessão fiquei a saber que John Sutherland fora o Marquês de Lorne, e mais tarde Duque de Argyll, com quem a Princesa casara na Capela de São George, Windsor, em 1871, onde a própria Rainha Vitória lhe deu a mão da filha...
No início de 1940 dei uma sessão que não só produziu alguma comprovação de primeira classe da sobrevivência do homem à morte do corpo como penso ter sido uma das sessões mais invulgar que alguma vez dei e certamente forneceu-me algum necessário ligeiro alívio
A presente deu-me o nome, Srª Bowering, e parecia rondar a casa dos sessenta. Fomos para a sala de sessões e sentamo-nos sem qualquer bate papo preliminar e eu apaguei a luz. Mickey falou à senhora quase de imediato: “Há aqui um homem que diz que se chama Fred e que vocês é a esposa, Alice.”
‘Sim’, disse a Srª Bowering, ‘o Fred é meu marido. Poderei falar com ele, por favor?’ Dentro de pouco tempo, falou a voz de um homem e ele e a Srª Bowering tiveram uma conversa íntima e pessoal sobre o passado que tinham tido juntos até que subitamente ele disse s rir: ”Gostei que te tenhas dado ao trabalho de tirar o meu corpo da sepultura após todos estes anos para o cremares! Vejo que usas o anel com que me enterraste no teu dedo neste instante! Eu encontrei aqui o Bowering, sabes e nós temos muito apreço um pelo outro. De facto diverte-nos imenso que tenhas as minhas cinzas numa urna na lareira e as cinzas dele noutra urna.”
A Srª Bowering então inquiriu se o Sr. Bowering poderia falar com ela em breve e logo a voz de outro homem saudou-a: “Sabes, Alice, muito embora tenhas colocado a urna do Fred junto com a minha na lareira nós não nos encontramos verdadeiramente lá. Estamos aqui e vimos muitas vezes juntos tentar ajudar-te como bem pudermos, mas essas cinzas realmente nada têm que ver mais connosco.”
Para minha admiração a Srª Bowering então disse a ambos os seus maridos que tinha conhecido um homem chamado Wilson e que considerava seriamente casar-se com ele. Ela queria saber se algum deles se oporia a isso. Tanto o Fred como o Sr Bowering disseram que não tinham qualquer objecção a fazer e que a única coisa que queriam era a felicidade de Alice.
Eu achei esta história das cinzas dos dois maridos guardadas em urnas na mesma lareira tão difícil de engolir que quando a luz foi acesa de novo eu perguntei à senhora se era verdade. Ela respondeu que era e disse-me o sarilho que tinha sido obter permissão para exumar o corpo do Fred para o poder cremar. Parecia que nos dias em que enterrara o Fred a cremação não tinha sido método habitual à disposição e assim tinha-o enterrado na forma convencional. Mas as coisas tinham mudado desde o tempo do Sr. Bowering e assim ele foi cremado, e a urna contendo as suas cinzas adornava a lareira. Passado um tempo ela começara a sentir que o Fred pudesse sentir-se só no cemitério e assim iniciou a campanha para lhe exumar o corpo e o cremar e colocar a par com o do Sr. Bowering. Por fim lá conseguiu o que queria e agora tinha ambos os maridos perto e sentia-se muito mais satisfeita. Ela também confirmou que o anel que usava tinha estado na sepultura no dedo do Fred por muitos anos. Por fim ficara encantada por nenhum dos maridos se opor a um terceiro casamento por ela achar a vida a sós muito solitária.
Eu não voltei a ver essa senhora durante um bom par de anos após essa sessão, pelo que presumi que se casara uma vez mais e que viva feliz maritalmente. Mas como veio a verificar-se, eu estava enganado. Passado muito tempo ela retornou a uma sessão no seu novo papel de Srª Wilson e os seus dois primeiros maridos voltaram para falar com ela. Ela passou a sessão toda a repreendê-los a ambos por não a terem prevenido que o Wilson dela era não só um homem de maus hábitos como não tinha dinheiro e ela se via forçada a sustentá-lo. Os falecidos maridos dela lamentaram que a questão tivesse dado para o torto mas salientaram que a decisão de casar com Wilson tinha sido dela e que ela precisava assumir responsabilidade por ela. Contudo, a Srª Wilson tinha a ideia, que livremente expressou, de que eles deviam ter sabido antecipadamente como seria esse terceiro marido e terem-na prevenido disso. A Srª Wilson passou a ter sessões regulares comigo até à sua morte, aos oitenta. Ela viveu separada do Sr. Wilson durante muitos anos e ele morreu primeiro que ela. Por vezes imagino qual o marido que terá tido o prazer da sua companhia do outro lado e como o Sr. Wilson se enquadrava no quadro.
A Princesa Louise morrera em Dezembro de 1939 e o John James não fora capaz de vir até mim para as suas sessões regulares por se achar demasiado ocupado com a limpeza dos conteúdos do apartamento da Princesa composto por quase uma centena de compartimentos sob a direcção do então Duque de Kent a quem o conteúdo do Palácio tinha sido deixado por testamento. Porém, em finais de Março de 1940, o Sr. James telefonou-me a marcar uma sessão e eu tive o prazer de lhe marcar uma.
Creio que tanto o James como eu nos sentimos tristes por nos sentarmos juntos pela primeira vez desde a passagem da simpática princesa. Mas se o sentimos, não foi por muito tempo porque a própria Princesa Louise veio falar-nos e disse-nos como se encontrava contente por esta livre das dores e das enfermidades da idade avançada e por se ter juntado àqueles que amara. Agradeceu a James por fazer o que ela lhe pedira com respeito ao véu de noivado e aos seus anéis. Após a sessão, James contou-me que a Princesa se referia ao facto de ela lhe ter pedido para ser coberta na morte com o véu de noivado e para colocar os anéis de casamento no caixão junto com as cinzas. Antes dele se ir embora nesse dia, James mostrou-me com todo o orgulho um par de botões de punho com monogramas que o Duke de Kent lhe presenteara em agradecimento pela ajuda na limpeza dos apartamentos do Palácio de Kensington...
O nosso círculo familiar tinha resumido as sessões regulares agora, que me encontrava em casa e uma certa manhã a voz de uma mulher falou nuns modos agitados, pedindo para falar com o filho. Nós perguntamos-lhe o nome e ela disse que era Clara Novello Davies. Uma das pessoas presentes observou que ela devia ser a mãe do Ivor Novello. A mulher em espírito disse que era a mãe dele e que estava extremamente ansiosa para falar com ele. Nós explicamos a esse espírito que não conhecíamos o filho mas que se quisesse que lhe remetêssemos alguma mensagem faríamos um esforço por ver que ela lhe chegasse às mãos. O espírito agradeceu-nos a proposta mas disse que queria falar com ele pessoalmente, por o que ela lhe queria dizer era demasiado privado para o tornar público. Naturalmente quisemos saber por que razão a mãe do Ivor Novello parecia tão aflita, mas depois dela se ir não pensamos mais nisso.
Algumas semanas mais tarde um actor amigo meu pediu-me uma sessão no seu apartamento por se sentir ansioso por ajudar um dos amigos dele que se interessara pelo Espiritualismo. Eu concordei em fazer-lhe a sessão e quando cheguei ao seu apartamento na tarde combinada fui apresentado ao seu amigo que acabou por ser a encantadora Beatrice Lillie. Quase que ao mesmo tempo que a luz foi apagada o filho da Miss Lillie que se tinha perdido durante o serviço activo na marinha veio falar-lhe e eles tiveram uma agradável reunião. Quando o David se foi fiquei surpreendido por ouvir a voz da Clara Novello Davis a dirigir-se à Bea Lillie. Ela pediu à Miss Lillie para contactar o Ivor e combinar com ele uma sessão comigo para lhe poder falar sobre algo muito urgente. A Miss LIllie pediu à mãe do Novello para dizer alguma coisa que pudesse repetir ao Ivor, de modo a saber que era realmente a mãe quem estava a falar. O espírito disse que Ivor tinha nesse instante entrado no apartamento vindo de Oxford, onde tinha ido visitar um professor que tivera. Assim que a luz foi acesa, Bea Lillie telefonou a Ivor Novello e contou-lhe tudo quanto tinha ocorrido na sessão. Ela descobriu que o que a mãe dissera sobre o seu regresso da visita que fora fazer a um professor de Oxford era verídico e Novello manifestou um enorme interesse. Ali mesmo foi combinado ao telefone que eu lhe marcaria uma sessão no seu apartamento na noite seguinte ao do seu espectáculo “The Dancing Years”.
Na noite que eu devia dar ao Ivor Novello a sua sessão eu conheci o meu actor amigo no restaurante Ivy onde me tinha convidado para almoçar. Ficáramos de encontrar-nos com Ivor após o espectáculo dele e de ir com ele para o seu apartamento. Enquanto estávamos a jantar, o Ivor telefonou ao Ivy e cancelou o encontro. Tanto o meu amigo como eu ficamos desapontados e um tanto aborrecidos por termos sido adiados em tão pouco tempo sem nenhuma desculpa convincente. O meu amigo pensara que o Ivor provavelmente se atemorizara ante a ideia de falar com espíritos no seu próprio apartamento e provavelmente imaginara que posteriormente viesse a ser assombrado. Lá superamos a ligeira ofensa e desfrutamos de um excelente jantar em tempo de guerra. Algumas semanas mais tarde lemos nos jornais que Ivor ia ser processado por ofensa cometida ligado ao racionamento da gasolina. Evidentemente ele tinha andado a conduzir até à sua casa de campo aos fins-de-semana recorrendo ao uso de gasolina que alguma rapariga admiradora lhe tinha arranjado sem perceber que estava a cometer o que me período de guerra era uma infracção penal. Então ficou claro porque a Clara Novello Davies tinha insistido tanto para contactar o filho, obviamente ela queria preveni-lo com respeito à recepção que ele fazia da gasolina ilícita. Se Ivor não tivesse cancelado o encontro comigo à última da hora ele poderia ter evitado a vergonha e a infelicidade que sofreu quando mais tarde foi servir um mês no cárcere.
Eu conheci o Ivor Novello alguns anos após tais eventos e ele participou comigo muitas vezes. Frequentemente a mãe viria conversar com ele. O Ivor disse-me que certa vez durante a sentença que cumprira na prisão, ele estava certa noite sentado na cela a sentir-se em baixo e deprimido e a imaginar se iria aguentar a sentença sem sofrer um colapso mental quando a mãe lhe apareceu. Ele disse que ela parecia tão real e viva quanto fora em vida e que o aspecto de carinho e de encorajamento que mostrava na cara lhe dava forças para continuar e poupar a razão...
Numa das sessões de grupo em que um dos participantes era o honrado convidado era o Marechal do Ar, o Lorde Dowding, um Espiritualista convicto, o meu guia de dialeto Londrino, Mickey, apresentou-nos um jovem aviador nos seguintes termos: “Está aqui um sujeito da Força Aérea que quer entrar em contacto com os pais. Ele está tão excitado que não sei se irá conseguir falar mas eu procurarei ajudá-lo.” Logo escutamos a voz do aviador a pedir-nos para contactarmos o pai e a mãe. Ele tinha-os ido visitar com frequência, disse ele, mas eles não o podiam ver. Ele contou-nos que fora abatido quando o seu avião se despenhara na Noruega aos vinte anos de idade, e que ele era o único filho dos pais. “Por favor digam à mãe que agora estou bem,” exortou ele, “Por ela se encontrar tão triste que isso a está a deixar doente.”
Mais ninguém do grupo conseguiu identificar o comunicante, de modo que o Sr. Walter J. West, o nosso Vice-presidente do Templo da Luz perguntou o nome completo do rapaz e prometeu entrar em contacto com os pais caso fosse possível. “Muito obrigado,” respondeu o rapaz falecido, “eu tive três nomes de baptismo, Peter Wiliam Handford e o apelido de Kite.” De seguida deu-nos um endereço situado em Grange Park, a norte de Londres, onde disse que os pais ainda viviam. Mas não foi tudo, Peter Kite a seguir falou a um homem do grupo dizendo: Eu conheço-o, vocês é o Sr. Turner, e extraiu-me um dente.” Nenhum dos participantes sabia que o Sr. Turner era dentista nem sequer lhe conhecia o nome. O Sr. Turner disse que se recordava de Peter Kite ter vindo procurar tratamento junto dele alguns anos antes mas não sabia que tinha sido morto nem sequer que se tinha alistado na R.A.F.
Depois da sessão o Sr. West foi a Grange Park e encontrou a casa onde Peter Kite tinha dito que os pais viviam. A mãe do falecido rapaz, a Srª May Kite, atendeu à porta ao Sr. West e quando ouviu o que ele lhe tinha a dizer aceitou prontamente o convite para fazer parte de um grupo especial de sessões no Templo da Luz junto com o pai do Peter.
O facto de termos achado que a presença do Lorde Dowding na primeira sessão tinha ajudado o tenente de vôo Peter Kite a manifestar-se, convidámo-lo a tornar-se membro do grupo especial em que os pais do rapaz seriam convidados e ele prontamente concordou em participar connosco.
Quase ao mesmo tempo em que a luz foi desligada o Mickey veio contar-nos que Conan Doyle queria dirigir umas palavras à Srª e ao Sr. Kite antes do filho lhes vir falar. Doyle, que em vida finalmente se convencera do Espiritualismo após anos de participação em sessões com médiuns, veio então falar com simpatia aos pais que não tinham qualquer conhecimento das questões psíquicas. Ele explicou-lhes como, após o avião de Peter se ter despenhado ele dera por si vivo num corpo novo e mais subtil que se assemelhava em todos os aspectos ao seu corpo físico que ele pudera ver estendido sem vida junto aos destroços da sua aeronave. Inicialmente, Doyle disse ao casal que o filho tinha ficado perplexo porque, embora pudesse ver o corpo que reconheceu como sendo ele próprio, ele sentia-se gloriosamente vivo e bem e simplesmente não conseguia compreender que se encontrava morto. Quando dois camponeses vieram investigar os destroços do avião Peter ficara intrigado por parecerem nem vê-lo nem ouvi-lo, mas em breve amigos dele que ele sabia terem morrido antes vieram e explicaram-lhe a nova condição de vida em que se encontrava e para o levarem para o seu novo plano de existência.
Assim que Doyle terminara de falar, Peter Kite excitado cumprimentou o pai e a mãe: “Eu tenho o cão, Mãe.” disse ele a rir, “é da Alsácia.” Isso tinha dito em referência a uma graça que pregara à mãe apenas alguns dias antes de morrer. O Peter tinha sido amante de cães e tinha telefonado à mãe a dizer que iria enviar para casa um cão de raça da Alsácia. A senhora Kite não era amante de cães, e a ideia de um enorme cão da Alsácia a deitar-lhe as coisas a baixo por toda a casa deixava-a horrorizada. Depois de a provocar durante um bocado Peter cedeu e lembrou-lhe que era o 1º de Abril.
“Eu vi que colocaste a minha fotografia na mala junto com as da Noruega antes de saíres de casa,” prosseguiu a voz do espírito. A Srª Kite disse-nos que tinha mudado de mala de mão antes de sair para a sessão e que tinha transferido o conteúdo que incluíam a fotografia do filho e algumas que lhe tinham sido enviadas recentemente, da sua sepultura na Noruega. “Tu estás a manter o jardim em bom estado,” disse o Peter. “Agrada-me a parte que transformaste num jardim de memórias. Sabias que os pássaros que fazem ninho na Cerejeira conseguem ver-me apesar de tu não o conseguires?”
Os pais disseram-nos que seis anos antes da altura em que Peter foi abatido, eles tinham repartido um remendo do jardim em memória dele e que tinham plantado nele uma cerejeira em que os pássaros construíam ninhos nessa altura. “Eu vou muita vez até ao meu quarto e vejo que não mudaste nada nele,” prosseguiu Peter. “O meu modelo de avião ainda lá se encontra e todos os meus livros e o papel de parede de que não gostava!” Era verdade que os pais mantiveram o quarto do filho exactamente como estava no dia em que ele foi morto e que ele nunca tinha apreciado o papel de parede que lhe revestia as paredes.
“Alegra-me saber que o meu carro ainda anda, mas é pequeno demais para ti, Pai, não é?” O Sr. Kite concordara que o carro desportivo de Peter pouco conforto proporcionaria ao pai; ela era grande e estava um tanto acima do peso. “Estou a dizer todas estas pequenas coisas para que saibam com certeza que sou eu quem está a falar e que os venho ver, e que acima de tudo quero que tu e a mãe saibam que me encontro vivo, mais vivo do que alguma vez estive.”
Durante perto de 40 minutos a voz de Peter Kite prosseguiu empilhando detalhes atrás de detalhes de elementos comprovativos, detalhes em si mesmos eram triviais, mas que no seu todo davam aos pais uma prova irrefutável da sua identidade e da sua contínua existência. Quando a sessão terminou ambos os pais declararam que a sobrevivência do filho à morte tinha sido conclusivamente provada. “Eu nunca pensara muito neste tipo de coisa antes,” disse o Sr. Kite, “mas agora estou completamente convencido. Ao que a Srª Kite acrescentou: “Encontrei mais conforto neste sessão do que alguma vez obtive junto de qualquer outra fonte desde que o meu filho foi morto e abandonei grande parte da amargura que sentia.”
Durante uma das minhas dispensas do exército dei uma sessão para uma tal de Srª Barrat, uma senhora Belga que viva em Golden Green, cujo filho George tinha sido morto em combate anteriormente na guerra. George manifestara-se na sua sessão e deu uma prova tão inegável da sua sobrevivência que o pesar dela foi atenuado e a vida voltou a a valer a pena viver. A Srª Barrat era rica e detentora de um coração generoso. Em jeito de agradecimento associado a um memorial ao seu filho, ela decidiu conceder às outras mães que tinham perdido os filhos a oportunidade de receber o conforto que ela tinha obtido. Assim que regressei a casa após o meu serviço militar a Sr:ª Barrat marcou uma sessão regular comigo e passou a trazer as mães de todos os cantos do país com ela, e a pagar-lhes as despesas com um fundo que estabelecera para esse propósito.
Antes de cada uma dessas sessões a Srª Barrat diria às suas mães que não tinha revelado nada ao médium sobre nenhuma delas, nem sequer os seus nomes, de modo que qualquer evidência obtida pudesse ser mais válida. Tiveram lugar muitas reuniões comoventes nessas sessões e muitas mães foram as que partiram confortadas. Certa vez, uma dessas mães que a Srª Barrat trazia não compareceu a horas quando a sessão estava para começar, e após termos esperado uns minutos decidimos começar sem ela. Quando a sessão estava em progresso havia algum tempo, a voz de um jovem fez-se ouvir a perguntar pela mãe. A Srª Barrat perguntou-lhe quem era e quando ele lhe deu o nome ela percebeu que ele devia ser o filho da mãe que estava em falta. A Srª Barrat explicou ao rapaz morto que a sua mãe não tinha vindo e que a sessão estava a ter lugar sem a presença dela. "O comboio da mãe chegou atrasado," diz a voz, "mas ela encontra-se aqui agora. Está sentada numa cadeira no patamar fora desta sala. Façam-me o favor de me deixar falar com ela." Lamentavelmente a Srª Barrat disse ao rapaz que não podia abrir a porta da sala de sessões para deixar entrar a mãe, por a luz do exterior poder prejudicar o médium.
"Eu devo tentar falar com ela de algum modo," disse o jovem, "ela sofre tanto por minha causa que me deixa infeliz, e não consigo instalar-me na minha nova vida aqui." E então ocorreu uma coisa estupenda. Por regra, as vozes dos desencarnados falam a partir de um ponto situado acima da minha cabeça ligeiramente para o meu lado naquilo que o Mickey refere como a minha emanação áurica, mas à medida que o espírito falou a sua voz afastou-se de imediato da minha beira pelo quarto fora até à porta onde chamou em voz alta pela mãe. Do lado de fora da porta a mãe respondeu-lhe e o rapaz falecido e a mãe viva conversaram  através da porta até a mulher ficar convencida de que ele era realmente o seu filho que estava vivo e adorado conforme o fora em vida.
Numa outra sessão foi uma filha que regressou para confortar a mãe. Uma Srª Maxon que vivera em Oxford telefonou uma tarde, levada por um impulso conforme me dissera depois, e como acontecia haver um lugar livre num dos grupos, foi-lhe estendido o lugar. A sua filha manifestou-se e falou da sua carreira como professora de dança numa voz clara de garota com um matiz de sotaque do norte. A moça recordou à mãe o último ballet a que tinham assistido juntas em Covent Garden, Les Sylphides, e disse-lhe que desde que passara tinha conhecido Anna Pavlova por quem sempre tinha tido o maior respeito e admiração como cabeça da sua própria profissão. A filha falou igualmente de um tempo em que tinha feito gazeta à escola anos antes e aguardou três horas debaixo de neve por um lugar na galeria para ver Pavlova dançar na matiné.
O Mickey ficou intrigado com um vestido que disse que ela usava. Primeiro disse que parecia um vestido de casamento, mas depois achou que pudesse ser um vestido de confirmação, mas quando descreveu algumas flores avermelhadas na saia a Srª Maxon reconheceu logo que se tratava do longo vestido de balé usado durante Les Sylphides e disse-nos que ela própria cosera as flores vermelhas na saia algum tempo antes da doença derradeira da filha. "Foi-me dada uma prova absoluta  da sobrevivência da minha filha," escreveu a Srª Maxon numa carta ao Psychic News após essa sessão, "onde era uma perfeita estranha na sessão. Marquei a minha comparência por telefone a partir de Oxford, onde estava sozinha.
A maioria daqueles que comunicavam a partir do outro lado nas minhas sessões contam como se sentem felizes na sua nova condição de vida, mas recordo uma entidade que deixou um dos meus grupos em sobressalto ao se revelar muito rabugento e ressentido. El contou-nos que fora um G.I. Americano que tinha sido morto num raide aéreo repentino em Londres, e quando uma mulher do grupo disse que estava surpreendida por o ouvir falar assim ele replicou: "Bem, não foi nada divertido vir até Londres para morrer justamente num raide!"
Numa sessão que foi dada em demonstração da voz directa e independente a voz claramente cockney de Mickey foi a primeira a fazer-se ouvir nessa noite, e como parece ser parte da sua função pôr as pessoas à vontade antes das sessões ele deu uma risada ao dizer animadamente: "Esta noite temos uma multidão razoável aqui, não? Espero que muitos deles não saibam muito sobre estas coisas, mas farei o melhor de que for capaz!" A primeira visita proveniente do outro lado deu o nome de Roy Marchant e foi identificado pelos pais presentes na audiência: "Olá, Mãe! Olá, Pai," disse o Roy animadamente. "Eu quero que saibam que não estou morto, mas que me encontro maravilhosamente vivo e que lhes remeto todo o meu amor a vós e ao bebé." O pais responderam com afecto. A seguir Roy agradeceu à mãe pela festa infantil que fizera ao filho dele. "Não pensem em mim como muito afastado," prosseguiu ele. "Não estou. Estou muitas vezes convosco. Estive convosco na Suíça! Não existe separação alguma real."
O comunicante seguinte deu o nome de Gladys Richmond e falou a um homem que se encontrava na frente da audiência implorando-lhe que o perdoasse por qualquer mal-entendido que pudesse ter sucedido entre eles quando estava na Terra. "Lamento tudo," disse ela, "foi um acidente - acreditas nisso, não?" O homem tranquilizou-a de que acreditava e que compreendia. "Estou tão feliz, entendes," disse a Gladys, "e quero que perceba que o amo e que um dia iremos encontrar-nos juntos de novo. Muitas vezes lê a última carta que lhe escrevi antes de ir para a Escócia, eu vejo-o a lê-la.
"Sinto-me um intruso por vezes, mas espero que não se importe," veio a voz de uma mulher. "Sou Stella Patrick Campbell e quero apresentar-lhes Leslie Howard." Gerou-se m murmurinho de expectativa por todo o auditório. Leslie Howard, o famoso actor, tinha sido morto três anos antes quando o seu avião desarmado foi abatido por um piloto de caça Alemão e a sua morte foi amplamente deplorada.
Foi ouvida uma voz culta masculina. "Deus os abençoe! Fico contente por ser capaz de vir e de falar-lhes desta forma. Muitos de vós porventura não compreendem que não existe morte. Aqueles de nós que aqui nos encontramos que vimos por esta via, vimos ajudá-los e orientá-los, a fim de tentar elevá-los. A orientação espiritual não cessa, aquilo que sucedeu há dois mil anos atrás tem ocorrido ao longo dos séculos e ainda está a ocorrer hoje. Eu fui a reuniões como esta quando me encontrava na Terra e encontrei nelas um enorme conforto e interesse. Não fui, porventura um Espiritualista, mas certamente que acreditei na sobrevivência do homem à morte."
Falando num tom de voz mais pessoal a voz de Howard prosseguiu: " Eu gostava de falar à Phyllis James, a minha anterior secretária." A Miss James respondeu-lhe e ele pediu-lhe para enviar o seu carinho a Ruth e para dizer à família dele que tinha aparecido nessa noite. "A morte não me furtou de nenhuma das minhas faculdades," concluiu ele: "Deus abençoe cada um dos presentes aqui esta noite."
Um dos contactos mais comoventes da noite teve início muito silenciosamente com o Mickey a dizer: "Quero falar à senhora que está toda vestida de cinzento nas traseiras por o filho dela se encontrar aqui. Ele esteve na marinha. Ele chama-se Jim." Uma mulher que se encontrava mesmo no fundo da galeria chamou: "Será para mim?" Assim que a sua voz foi ouvida, de súbito e em voz alta veio uma patética exclamação: "Mãe! Mãe! Estou tão contente por ter vindo!" "Querido, querido!" foi tudo quanto a mãe conseguiu responder. "Eu não estou morto, sabe," assegurou-lhe Jim ansiosamente, "Estou bem!" Tentando produzir convicção a ansiedade do Jim aumentou. "Eu afoguei-me. Eu estou VIVO!" A palavra proferida num clamor ressoou pelo salão, carregada da dor de não saber se o conforto que visava produzir seria plenamente entendido. O Mickey interveio a essa altura a fim de produzir o anticlímax que restabeleceu um sorriso em cada face. "O Jim encontra-se terrivelmente mais vivo agora do que você, senhora, é o que eu lhe digo!"
Quando a sessão estava quase no fim foi ouvida a voz de uma mulher a falar numa dicção culta e precisa tão familiar ao meu próprio círculo caseiro, a voz de Ellen Terry. "Senhoras e senhores," disse ela, "foi-me pedido para vir e falar aqui esta noite por uns momentos embora eu saiba muito bem que muitos gozam de maior proficiência que eu. Porquanto todos vós que possuís fé no Espírito e na certeza do conhecimento de que a vida continua após a morte, não há razão para não desenvolverem os grandes dons do espírito nos vossos próprios lares. Por vezes poderão ficar abatidos e deprimidos e sentir que não estão a conseguir um progresso suficiente; nós ajudámo-los a partir do nosso lado tudo quanto pudermos embora não possamos dizer quanto tempo o desenvolvimento individual irá levar. No caso de alguns leva anos, já com outros sucede muito rápido, se perseverarem; mas tenham fé, reúnam-se com sinceridade de espírito e usem os vossos dons em serviço da humanidade. O rescaldo da guerra deixou o mundo num caos, pelo que mais do que nunca será necessário transmitir o auxílio que pode vir do nosso lado da vida. A ignorância e egoísmo do homem trouxe enorme sofrimento à humanidade, e as pessoas dizem: 'Porque permitirá Deus estas coisas?' mas Deus concedeu-lhes livre arbítrio. Procurem formar um elo com aqueles que se encontram no espírito e recordem a promessa de Jesus quando se reunirem: ?Olhai, eu estou sempre convosco.' Avancem com força e saibam que também vós servireis. Sejam os Seus servos, os Seus filhos, e ser-lhes-á trazida a paz eterna."
Numa outra demonstração em plena luz, desta vez no Teatro Scala, em Londres, uma voz que alegara ser a de John Wesley deu uma maravilhosa oratória em que falou à audiência do plano do mundo do espírito de trazer luz ao nosso mundo toldado e para disseminar a verdade da vida após a morte. Ao me sentar no meu gabinete abafado no palco a escutá-lo maravilhado com a sua eloquência e domínio da língua muito além dos limites que a minha própria educação permitiam.
Quando a voz de Wesley se desvaneceu e após diversas entidades terem falado a amigos na audiência foi ouvida a voz animada de uma jovem subjugada pela emoção. As suas palavras hesitantes mas claras, eram a primeira tentativa, segundo disse, no sentido de comunicar.
"Como se chama?" perguntou Drayton Thomas que se encontrava sentado no palco com Lorde Dowding e o meu círculo familiar. "Chamo-me Doreen," respondeu a moça. "Pode revelar-nos o seu outro nome?" foi a pergunta seguinte. Como que a moça achasse isso muito difícil de dizer Mickey respondeu por ela que o apelido era Marshall. Gerou-se um sussurro de agitação vindo da audiência, enquanto os presentes especulavam se a Doreen Marshall poderia ser uma das vítimas do pervertido assassino Neville Heath que tinha sido enforcado pelo assassinato de uma outra moça desafortunada não muito antes.
"Será que alguém aqui conhece a Doreen Marshall?" perguntou Drayton Thomas à audiência. Um homem que se encontrava em algum lugar perto da frente respondeu que vivia no lado oposto ao da casa dela. Então, a moça tentou falar de novo. "Estou bem agora," disse, e depois dirigindo-se ao homem que alegara ser vizinho dela: "Eu costumava fazer festas ao seu cão." Por essa altura a emoção da moça revelava-se demasiado opressiva e o elo rompeu-se.
na reunião seguinte que se deu no meu círculo caseiro eu pedi que alguém me fosse enviado em socorro.
"Alguém foi já enviado," disse o Mickey, "ele está a trabalhar na sua casa e esteve na nossa última reunião em Kingsway Hall." Eu não consegui imaginar o que o Mickey queria dizer. A única pessoa que se encontrava a trabalhar em casa era um jovem que redecorava um dos quartos.
"Não podes estar a referir-te ao pintor, estás?" disse eu ao Mickey. "Estou, sim," respondeu ele animado. "Ele chama-se Bill Willis e ele anda a imaginar o que irá fazer quando  o trabalho aqui terminar por o sócio que tinha lhe ter voltado costas. Pede-lhe e ele tomará a cargo as tuas preocupações e interessar-se-á pelo teu trabalho."
Era verdade que originalmente tinha tido dois pintores quando o trabalho começara e que durante os últimos dias um deles tinha andado a faltar mas mesmo assim a solução do Mickey para os meus problemas parecia altamente improvável. "Pede-lhe! Estou-te a dizer que ele o fará," disse o Mickey com um traço de impaciência diante da minha óbvia incredulidade. "Muito bem," disse eu, "se tu o dizes, Mickey."
Na manhã seguinte muito timidamente peguei numa chávena de chá e fui até ao quarto em que o pintor trabalhava só. Para pôr à prova a declaração do Mickey, estava para lhe perguntar se ele tinha estado na minha reunião de Kingsway Hall quando ele me disse como a achara interessante. Disse-me que se sentara junto a uma mulher cujo filho, morto durante a guerra, lhe falara numa voz que a mulher dissera ao Bill que era exactamente a voz dele quando estava na Terra. "Será isso realmente verdade?" disse o Bill, "porque parece demasiado real para ser verdade." Eu assegurei-lhe que era verdade, e testando mais o Mickey, perguntei-lhe se o sócio o tinha deixado. "Deixou," respondeu Bill. "Deixou-me numa trapalhada. Não posso dar continuidade a este negócio sem um outro camarada e ele foi-se de vez. Não sei o que vou fazer quando terminar este trabalho. Arranjar um emprego numa fábrica, muito provavelmente."
"Gostaria de vir trabalhar aqui?" perguntei. "Preciso de alguém que me dirija a casa e trate da minha mulher." Bill hesitou, mas depois perguntou se faria parte do trato ter um quarto onde dormir. Quando disse que sim, ele ofereceu-se para o experimentar se eu não me importasse de o ter à experiência enquanto aprendia a cozinhar. Ele também disse que gostaria de saber mais sobre 'esta coisa do espírito.'
Cedo se provou que Bill tinha sido um tesouro. Rapidamente dominou um tal hábito como a que tínhamos em nossa casa e começou a estudar livros de cozinha e a seguir aprendeu a servir pratos deliciosos e imaginativos....
O Comité do Templo da Luz organizou uma outra demonstração massiva no Kingsway hall. Como numa ocasião anterior cabia-me sentar-me no meu gabinete abafado montado no palco enquanto o salão permanecia plenamente iluminado. Semanas antes da data do anúncio todos os lugares vagos foram reservados e na própria noite do evento centenas tiveram que ir embora enquanto todos os lugares em pé foram ocupados. Como era habitual Mickey falou primeiro, mas desta vez, ao contrário do costume, ele disse à vasta audiência que Mickey era somente o nome pelo qual era conhecido no mundo do espírito e pelo seu médium. Disse que na sua vida passada na terra ele se chamara John Whitehead e que tinha vendido jornais fora de estação do metro de Camden Town até ser atropelado e morto po um camião quando estava com dez anos. "Estou muito mais contente aqui do que alguma vez estive do vosso lado," assegurou ele à multidão do salão. "Podia-se dizer que 'Bater a bota' tenha sido a melhor coisa que fiz!" Isso deu lugar a um riso generalizado e a tensão por todo o salão relaxou de forma notória.
A voz seguinte alegou ser a de Jack Hickinbotton, que costumara viver no 76 de Albert Street, Tipton, Stafforshire. Da galeria uma voz de mulher respondeu: "Sim, filho, estou aqui!" Mãe e filho conversaram juntos sobre o abismo ilusório da morte e trivialidades como a cor de um impermeável, o nome dado ao cão de um vizinho, e a natureza da última doença que o filho padecera, tudo quanto em si mesmo era destituído de importância, mas que para a mãe que tinha vindo da sua casa nos Midlands apenas essa manhã e não conhecia ninguém em Londres, isso forneceu-lhe prova convincente de que ra na realidade o filho, morto havia oito anos, quem lhe falava.
No final do encontro o Rev Drayton Thomas dirigiu-se com breves palavras à audiência com as quais procurou deixar marcado na audiência que havia mais nestas nossas demonstrações do que o facto da comunicação entre este e o mundo do além; provas científicas, domésticas e emocionais eram todas excelentes, disse ele, mas que se isso fosse tudo quanto fosse colhido do encontro então a laranja teria sido descascada e a fruta jogada fora. "O verdadeiro sentido de tudo isto," prosseguiu ele, "está no facto de que a vida prossegue em frente de nível em nível sempre a tentar alcançar Deus."
Talvez a sessão mais dramática que dei em Los Angeles tenha sido uma em que um pai regressou para contar ao filho a verdade sobre a sua morte e a fim de exonerar o condutor do veículo que o matara.
O filho a quem chamarei Bill foi trazido com a esposa a uma sessão de grupo pela sua amiga Miss Artie Blackburn de Los Angeles. Tudo quanto a Miss Blackburn me disse sobre os amigos que ela desejava trazer à sessão era que o marido era um inventor brilhante e um cientista que sujeitaria toda e qualquer prova que conseguisse à análise e que recusaria aceitar qualquer coisa que não pudesse ser provada.
Na sessão Mickey falou a Bill e perguntou-lhe se estaria associado à Texaco Corporation. Bill respondeu que estava mas supôs que a Miss Blackburn tinha dado essa informação ao médium. Isso, tanto o Mickey como a Miss Blackburn negaram firmemente, e de facto eu nunca permito que os amigos dos presentes me deem qualquer informação sobre eles não só porque isso anularia qualquer evidência que se tornaria inválida, mas eu descobri que quando alguém me dava inadvertidamente alguma informação sobre um presente isso me deixa alerta para o facto de que a sessão provavelmente vai ser passada em branco.
“Foi o seu pai subitamente morto num acidente?” foi a pergunta seguinte que Mickey fez ao Bill, que disse que isso era verdade. “Que é La Brea?” perguntou Mickey a seguir. “É o nome do autocarro que matou o meu pai, foi a resposta que deu.” (É corrente os motoristas de alguns veículos de passageiros nos estados Unidos nomear o seu material circulante) “O seu pai diz que não foi culpa do motorista conforme todos vós pensastes, e diz que o senhor processou a Companhia o que foi péssimo porque por ter sido culpa inteiramente dele. Ele pensou que era suficientemente ágil para atravessar à frente do autocarro. Ele diz que o conduto não teve hipótese, e que não foi culpa dele em absoluto.”
Mickey, solicitado pela voz do pai de Bill, continuou a descrever as exactas circunstâncias em que se dera o acidente, mas de repente mudou de assunto: “O seu pai diz que não fez o que ele queria com o seu relógio e corrente Maçónicos.” O Bill, bastante magoado, espondeu que o dera a um amigo do seu pai, pensando que esse era o desejo do deu pai. “Deu-lhe o relógio dele?” perguntou o Mickey, “mas e a corrente?” A mulher de Bill intrometeu-se a esta altura: “Oh, querido,” disse ela. “Eu fiquei com a corrente, por a querer usar.” A mensagem seguinte que o Mickey transmitiu da parte do pai de Bill pedia-lhe para não visitar o cemitério com tanta frequência. “O seu pai diz que lhe leva flores do seu próprio jardim para lhe colocar na campa e ele preferia vê-las a crescer do que postas na sepultura onde ele não se encontra.” Era verdade que Billl levava as flores à sepultura e as tirava do jardim do pai porque Bill e a mulher estavam agora a viver na casa anterior do pai. “E em relação à bengala do seu pai?” perguntou Mickey a seguir. “O meu pai nunca usou a bengala a caminhar em toda a sua vida.” respondeu Bill. Impávido, Mickey respondeu: “Ele está a falar da bengala que preservou no cofre. Ela andava por aí à noite a bater com ela nas portas e nos cadeados a ver se tudo estava bem fechado.” “Ah, essa bengala!” disse Bill, “ainda se encontra no cofre.”
Quando foi perguntado ao Bill mais tarde o que achava da sessão, ele disse: “esta foi a noite mais maravilhosa da minha vida. Foi a noite em que o meu desenvolvimento espiritual teve início.”
Em todos os meus anos com médium nunca desconsiderei um conselho da parte dos meus auxiliares nem tão pouco ignoro agora o aviso que me fizeram de que o meu dom corria perigo pelo excesso de trabalho. Assim que me instalei na nova casa à qual, contra todas as probabilidades fui conduzido retirei-me do trabalho público. De forma inflexível recusei convites para fazer demonstrações nos grandes salões por todo o país por mais tentadores que fosse o incentivo financeiro oferecido. O meu novo número de telefone não foi incluído na lista telefónica e evitei a publicidade de todo o tipo. Limitei estritamente o número das sessões privadas que passei a dar e só fiz sessões com pesquisadores sinceros ou com aqueles cuja necessidade era grande. Claro que a minha renda sofreu uma redução considerável, mas a renda que pagava aos senhorios da casa que agora habitava era modesta e eu ganhava o suficiente para viver sossegadamente e para continuar a pagar o salário do Bill. Pela primeira vez na minha vida tive tempo para repousar, meditar, para prosseguir com os meus passatempos de fotografia e da arte do cinema mudo, e para desfrutar da companhia dos amigos. Tornei-me mais calmo, mais descontraído, e a minha saúde melhorou imenso.
Durante esse período aguardei que me mostrassem o novo trabalho que aqueles que me guiavam do outro lado da vida me disseram que devia fazer. Uma sessão de entre muitas destaca-se na minha memória por causa da curiosa relutância da parte que uma mãe cética teve em aceitar ou mesmo responder até mesmo aos esforços mais desvairados feitos pelo seu falecido filho para provar a sua identidade.
Patrick Selby, Director Geral e Gerente de uma organização que controla as actividades de dois teatros líderes do West End veio ter uma sessão comigo acompanhado por sete dos seus amigos, entre os quais figurava uma senhora a quem chamarei Srª Carr, por não ser o seu verdadeiro nome. Assim que a sessão começou tornou-se óbvio que tudo quando sucedia era dirigido para uma tentativa de convencimento da Srª Carr de que o seu filho Justin tinha sobrevivido à sua morte física. Após Mickey ter cumprimentado o Sr. Selby e os amigos dele, foi ouvida uma voz débil que disse: “Mãe, sou o Justin. É maravilhoso termos esta oportunidade.” A Srª Carr, algo incitada pelos outros presentes, respondeu, mas pareceu estar cheia de incredulidade. Com a sua voz que nunca se elevava além de um sussurro urgente Jutin começou a tentar convencer a sua mãe da sua identidade, fazendo menção a vários fragmentos de informação oriunda do passado, mas o que quer que oferecesse a título de prova a Srª Carr permaneceu distante e desinteressada. Por fim, como que para concluir o assunto, o rapaz falecido perguntou: “Lembras-te daquele período passado no rio com os cisnes?” Mas com o mesmo frio desapego a Srª Carr respondeu: “Creio que não.” A voz daquele espírito adoptou o tom do desespero: “Mas, precisas recordar-te, Mãe, por os cisnes terem atacado o barco!” Parecia que a Srª Carr não tinha qualquer memória disso. Contudo, uma das moças presentes interveio para dizer que recordava o incidente muito bem passado durante um tempo em que ela e os pais vivam perto dos Carrs e as duas famílias frequentemente iam andar de barco juntas. Indubitavelmente encorajada por esse apoio, Justin continuou recordando à mãe pequenos eventos que lhe sucederam durante a sua vida na terra, todos quantos ela recebeu com a mesma falta de entusiasmo e palpável descrença. Por fim, e conseguia-se perceber o desespero na voz do rapaz, ele explodiu: “Mãe! Eu hei-de convencer-te nem que isso seja o meu fim!” A despeito da seriedade da ocasião, os outros membros do grupo e eu não conseguimos evitar desatar a rir diante desta afirmação. Triste é dizer, embora muito mais provas terem sido dadas numa tentativa de convencer a mãe da sobrevivência do seu filho, ela deixou a sala tão obstinadamente cética quanto tinha entrado nela.
Uma manhã eu estava à espera de dois amigos do Rev. Drayton Thomas a quem ele tinha feito uma marcação por telefone. Experiente pesquisador como o Dray era, ele nada me disse sobre os seus amigos além do facto de serem o Sr. e a Srª Newton. Quando o Bill os trouxe para a sala de sessões fiquei chateado por ver um cão da raça Alsácia a segui-los. O Bill sabia muito bem que eu não permitia a entrada de animais na sala e estava para lhe perguntar o que estava a pensar quando me ocorreu que não se tratava de um cão terreno. Durante a sessão o pai do Sr. Newton falou-lhe e depois de ter dado provas da sua identidade disse ao filho que tinha um Rex com ele, acrescentado que inicialmente Rex não percebera porque fora afastado do mestre mas que agora tinha acalmado e encontrava-se muito feliz ‘com a mãe e comigo’. A esta altura e para surpresa minha ouvi o Sr. Newton a soluçar.
Quando a sessão terminou fiquei a saber pelo Sr. Newton que o casal tinha recentemente chegado da Austrália com a intenção de se instalarem em Inglaterra. Antes de partirem de barco a Srª. Newton tinha persuadido o marido a mandar abater o seu cão de raça Alsácia Rex por a mudança para um outro país ser mais simples sem ele. O marido ainda nãos e tinha perdoado por ter aquiescido com a destruição do cão que ele amara.
Essa sessão não foi a primeira nem de forma nenhuma fora a última na qual eu tenha escutado provas dadas pelos meus presentes de que algum animal se estimação continuava a viver numa outra dimensão. Estou convencido de que o amor que damos aos nossos animais neste lado da vida os eleva para um plano mais elevado da existência do que aquele que muitas outras formas de vida alcançam e que quando morremos os encontraremos à espera de nos acolher.
De vez em quando duas pessoas na terra fazem um pacto de que aquela que morrer primeiro fará todo o esforço por se comunicar do outro lado e combina um código ou mensagem entre elas que identificará o comunicante e provará que sobreviveu à sua morte. A Srª Grover, que agora vive em Somerset, marcou uma sessão comigo quando ela vivia em Londres há alguns anos na esperança de obter conforto para a sua filha mais nova estabelecendo contacto com o marido dela que tinha recentemente falecido. Na sessão, Bill, o genro da Srª Grover, falou tratando-a por Gerry com fazia no seu tempo de vida e perguntou-lhe pela saúde. Depois, numa voz carregada de tensão ele disse: “Urso da Mamãe, urso do Papai e Brumas.” Repetiu essa frase sem sentido muitas vezes, e de seguida disse de uma forma confusa: “Não sei porque estou a dizer isto excepto a fim de provar a identidade.” A Srª Grover ficou não só desapontada com a sessão como se sentiu mistificada, por a frase que tinha sido repetida com tal urgência nada querer dizer para ela. Quando ela regressou a casa e contou à filha o sucedido com a mensagem sem sentido que lhe tinham dado na sessão a esposa do Bill ficou irradiante. A frase tola que o Bill pronunciara repetidamente e com grande esforço era a mensagem em código que a rapariga concordara tentar comunicar ao companheiro no caso de um deles morrer primeiro.
Alguns anos mais tarde a Srª Grover teve outra sessão comigo na qual Bill se manifestou. Não creio que possa fazer melhor que citar aqui um extracto do próprio relato da Srª Grover da sessão que teve a amabilidade de me enviar:
“Sentámo-nos durante diversos minutos e eu começara a recear que o querido Mickey não viesse, mas ele veio e, após a conversa do costume, ele disse: ‘O Bill encontra-se aqui, tia Gerry’. Para minha surpresa, as primeiras palavras do meu genro foram: ‘Gerry, está muito preocupada com a saúde?’ Preciso explicar que o Sr. Flint não fazia a menor ideia de que eu tivera estado doente um ano antes de deixar Londres com uma queixa interna que ainda me incomodava. Enquanto estive em Londres nessa visita tive a oportunidade de consultar um cirurgião e passei um dia inteiro a fazer raios-X e vários examões na London Clinic uns dias antes da minha sessão O cirurgião fora chamado à Escócia para realizar uma operação de emergência e por essa razão a sua secretária dissera-me que só dentro de algum tempo poderia ver os resultados dos raios-X. Daí que tenha respondido ao Bill que me sentia bastante preocupada sobre a minha situação: O Bill respondeu: ‘Não precisa ficar preocupada. Eu vi os seus raios-X e não acusam qualquer malignidade. Não vai precisar ser operada, a cirurgia não pode curar um bacilo! Mas de futuro precisa ter muito cuidado com a sua dieta e evitar comida frugal’ O meu genro fora médico e especialista em radiologia durante a sua vida na terra. É preciso acrescentar que no dia seguinte a essa sessão a secretária do cirurgião me telefonou para me dizer que o cirurgião vira os raios-X e que repetira quase as mesmas palavras de tranquilização que o Bill me dissera na sala de sessões do Sr. Flint.”
Eu sentei-me algumas vezes com o Sr. S.G. Woods, que era um pesquisador psíquico e um homem de grande integridade. O Sr. Woods, George, tinha o hábito de trazer um gravador para as sessões que tinha comigo (de fita de papel nesses dias) e costumava reproduzir as gravações não só a membros da sua Igreja Espiritualista local como a qualquer um que pudesse beneficiar-se do conhecimento de que o homem continua a viver depois da morte quer goste da ideia ou não. Quando George me telefonou um dia para me perguntar se poderia trazer um amigo à próxima visita eu prontamente concordei, e quando ele chegou para a sua marcação vinha acompanhado por uma senhora encantadora que me apresentou como Srª Betty Greene, e explicou que essa seria a primeira experiência dela da voz directa em bora ela tivesse escutado com um enorme interesse as gravações que ele fizera das sessões que tivera comigo. Havia outras pessoas presentes quando o George Woods e a Betty Greene se sentaram na minha sessão pela primeira vez e o comunicante principal nessa ocasião foi Rose Hawkins, um espírito que falara noutras sessões minhas e que era suficientemente versada nas complexidades existentes entre os dois mundos para falar fluentemente e com inteligência no que eu supusera dever ser um razoável fac-símile da sua voz terrena, estridente, alegre, dotada de um sotaque Londrino arrastado mesmo mais pronunciado que o do Mickey. De acordo com o relato da própria Rose, ela tinha sido uma vendedeira de flores de rua cujo sítio ficava perto da Estação de Sharing Cross, no coração de Londres, e que tinha tido uma vida de dureza e de extrema pobreza. Rose estava sempre disposta a responder às perguntas que os presentes lhe colocavam embora na sua modéstia deixasse claro que ainda não avançara muito no senso espiritual e que ela negava ter qualquer conhecimento das condições de existência dos planos elevados da existência, que é habitado por almas mais elevadas.
Quando o George perguntou a Rose como era na sua presente condição de vida ela respondeu: ‘Agora é que me pergunta! Quer que lhe descreva o nosso mundo na vossa linguagem material! Nem sei por onde começar. Suponho que se conseguisse imaginar todas as coisas belas do vosso mundo sem aquelas que não são agradáveis, teria uma noção vaga daquilo a que se assemelha.’ Outro dos presentes perguntou se as pessoas no mundo da Rose alguma vez pensariam em dinheiro e a Rose mostrou-se desdenhosa. ‘Cá em cima não pode comprar nada com dinheiro, amigo! As únicas coisas que aqui conseguem é pelo carácter e pela forma como tiverem vivido a vossa vida, e pelo que tiverem feito e pensado!’
Quando um membro do grupo quis saber se existia lei e ordem do outro lado, Rose disse: ‘Existe a lei natural, meu caro, que todos começamos a reconhecer em breve após aqui termos chegado. Não há leis nem regras nem regulamentos, tipo Governos e assim, mas existem leis que são leis comuns e todos as reconhecemos.’ Quando a Rose falou do trabalho criativo que os espíritos fazem, enfatizou que o fazem por adorarem fazê-lo, tudo ali ser feito por amor, e quem quer do nosso lado quisesse ser músico, por exemplo, ‘que nunca tenha tido uma hipótese em vida, poderá fazer todas as coisas que quisera fazer.’
Ao passar em revista os anos vejo o convite que o George fez à Betty para participar nas minhas sessões nesse dia como o elo final numa cadeia de eventos que viria a levar à difusão mais ampla das novidades do meu trabalho do que alguma vez antes. George e a Betty sentaram-se comigo em privado uma série de vezes após essa primeira ocasião e sempre gravaram as suas sessões em fita, de modo que outros pudessem partilhar a sua experiência. Durante esses anos iniciais da minha associação com eles tomei progressivamente consciência da atmosfera muito especial de harmonia que foi criada na sala de sessões sempre que se sentavam juntos, e embora na própria natureza da mediunidade algumas das suas sessões se tivessem passado em branco, noutras alturas eles recebiam comunicação da parte de almas que tinham evoluído muito para além do nosso mundo material.
Desde a mudança para Hendon, a saúde do Bill começou progressivamente a piorar, mas por ele saber que a morte era apenas um passo para uma vida mais vasta, o Bill enfrentou a sua doença terminal com calma e serenidade, e sem medo. Quando Bram veio viver connosco Bill treinou-o nos seus deveres como ele tinha desempenhado tão fielmente e de seguida, como era seu desejo, voltou à cidade onde tinha passado a sua juventude passar algum tempo do que lhe restava.
Por essa altura George Woods e Betty Greene já participavam comigo em intervalos de dois ou três anos e um dia durante uma sessão Elen Terry surgiu para falar com eles e disse-lhes o seguinte:
“Vocês vão ter algumas comunicações notáveis, e eu sugiro que mantenham este contacto com regularidade para edificarem o poder e fortalecerem o elo que foi deliberadamente organizado para as vossas gravações. Há almas deste lado da vida que têm um enorme desejo de fazer uso destas oportunidades a fim de passarem informação sobre a vida no nosso mundo e a mecânica da comunicação que se estabelece entre o nosso mundo e o vosso. As fitas que vocês gravam dar-nos-ão os meios de chegarmos às pessoas no vosso mundo e nós iremos utilizá-las pelo melhor de que formos capazes. Traremos aqui diversas almas de diferentes esferas da vida para lhes dar palestras e preleções que poderão ser difundidas e reproduzidas por todo o mundo, por entre milhões de pessoas. É por isso que queremos que compareçam regularmente junto deste médium para acumularem o poder e tornar possível uma forma que faculte a essas entidades vir e falar-lhes sobre elas próprias e diversas coisas de importância para a humanidade.”
Durante a guerra os meus auxiliares espirituais foram reunidos por outro que se apresentou no meu círculo familiar como alguém que vivera e praticara medicina em Hampstead, Londres. A personalidade que a sua voz simpática sugeria era a do médico de família ideal de toda a gente. Dos retalhos de informação que o Dr. Marshall nos deu sobre a sua pessoa de vez em quando, fomos capazes de verificar alguns factos da vida que vivera na terra. O Dr. Charles Frederick Marshall nascera em Birmingham em 1864, e recebera o seu treino médico no Hospital Bart em Londres onde granjeara uma reputação brilhante tanto em medicina como em cirurgia. Ele interessava-se pela investigação psíquica quando o tema era ainda considerado excêntrico e eventualmente tornara-se Espiritualista convicto. Originalmente especializara-se em doenças da pele mas mais tarde voltou-se para a doença do cancro. Após anos do seu estudo ele acreditava ter descoberto uma nova abordagem à doença e um novo método de tratamento. Em 1923 publicou Uma Nova Teoria do Cancro onde ele propunhas as suas teorias e descrevia uma quantidade de casos avançados que alegava tinham sido curados pelo seu método. Infelizmente, os pânditas da medicina não estavam interessados e ele morreu em meio ao desapontamento em Maio de 1939. Desde que surgiu pela primeira vez, o Dr. Marshall tinha aconselhado e ajudado literalmente milhares dos meus consulentes em relação à sua saúde ou ansiedades emocionais.
Os meus bons amigos, o Sr. e a Srª Archer vieram sentar-se comigo acompanhados pelo filho de vinte anos de idade chamado Roland, que estava na Marinha Mercante. Notei que um dos olhos do Roland estava inchado, injectado de sangue e profusamente aguado e perguntei-lhe o que tinha de errado. Ele contou-me que tinha tido dores desconforto no olho havia meses mas que nenhum dos médicos que tivera consultado tinha sido capaz de descobrir a causa do problema. Era óbvio que o jovem estava preocupado e não menos devido a ter sido visto recentemente por um iminente oftalmologista que também não tinha conseguido descobrir qualquer razão para os sintomas.
Durante a sessão, o Dr. Marshall veio falar aos Archers e tocou de imediato no assunto do olho de Roland Recordou ao jovem uma ocasião alguns meses antes em que ele tinha andado a limpar vigias com um esfregão de malha de aço e disse-lhe que uma partícula ínfima da malha de aço se tinha desagregado e alojado no olho dele, e que era isso que estava a causar a dor e a irritação. Aconselhou o Roland a voltar ao Hospital de Oftalmologia e com tao sugerir ao iminente especialista essa possibilidade. O rapaz acatou o conselho do Dr. Marshall e a partícula de malha de aço foi devidamente localizada e cirurgicamente removida.
Eu comecei cada vez mais a aguardar ansiosamente pela Betty Greene e pelo George Woods nas minhas sessões. As entidades que vinham conversar com eles eram diversificadas e interessantes. Algumas tinham sido famosas durante o seu tempo de vida, outras tinham vivido na obscuridade, mas todas tinham algo de interessante, informativo ou de inspirador a dizer que era gravado em fita de modo ao George e à Betty poderem partilhar as suas sessões com todo e qualquer um que se interessasse por aquilo. Numa das suas sessões um espírito com um sotaque acentuado Francês apresentou-se como Richet e, no decurso da conversa que tiveram com ele, ficamos a saber que era o falecido Professor Charles Richet, o iminente psicólogo Francês que presidira em 1905 à Sociedade de Pesquisa Psíquica em Londres. Ele explicou-me como a minha mediunidade era usada por os que se encontravam do lado dele. Disse que todos os seres vivos possuem uma substância conhecida como ectoplasma que constitui uma força vital, e que um médium físico como eu tem muito mais do que a maioria das pessoas. Durante uma sessão essa substância, que por vezes é igualmente referida como ‘o poder’ é retirada do médium e moldada pelos espíritos que entendem como fazê-lo, numa réplica das cordas vocais físicas que é conhecida como a ‘caixa de voz’, ou por vezes a ‘máscara’. O espírito comunicante então concentra os seus pensamentos nessa caixa de voz e ao faze-lo cria uma frequência ou vibração que chega aos presentes sob a forma de som objectivo. O falecido professor prosseguiu falando das dificuldades que esse meio de comunicação apresenta do ponto de vista do espírito. Disse-nos que não só a entidade comunicante precisa baixar a sua própria frequência até às mais baixa da terra, como em simultâneo precisa recordar como a sua voz soava durante o seu tempo de vida e recapturar lembranças de acontecimentos que dêem prova da sua identidade à pessoa a quem deseja comunicar.
Quando foi perguntado ao professor se consegui ver e ouvir as pessoas presentes nas sessões ele respondeu que isso dependia do volume de concentração que ele depositasse nos esforços para o conseguir. Se ele focasse a sua mente o suficiente ele conseguiria ver e ouvir as pessoas na terra mas ele achava mais simples apreender os seus pensamentos antes de serem proferidos por palavras. Ele ficou bastante irritado quando alguém sugeriu que por vezes as vozes dos comunicantes oriundos do mundo dos espíritos não soavam exactamente da mesma maneira que as vozes que tinham tido em vida e ele disse que dificilmente seria provável que viessem a soar as mesmas, visto que eles não mais usavam as mesmas cordas vocais que tinham tido em vida. Acrescentou que deveriam levar em consideração igualmente que o espirito que comunicasse tentava concentrar-se em três coisas diferentes ao mesmo tempo enquanto comunicava.
A maior parte do que Richet disse fazia sentido para mim. Eu ouvira frequentes vezes os comunicadores observar as dificuldades de falarem através de uma caixa de voz que ondula o tempo todo, ou dizer em tom de queixa como era confuso recordar algum acontecimento que provasse para além de toda dúvida quem eram enquanto se concentravam tanto noutras coisas. Como o Professor Richet observou com bastante mau-humor: ‘O milagre está em que conseguimos comunicar em absoluto.’
Numa outra sessão a entidade que falou com um sotaque gutural Alemão disse-nos que o seu nome tinha sido Franck e que tinha sido prisioneiro no campo de concentração de Dachau onde fora morto por se recusar a ‘fazer determinadas coisas que eles queriam que eu fizesse que não me agradava.’ Quando foi enviado pela primeira vez para Dachau o Dr. Franck tivera permissão para fazer uso dos seus dons médicos a fim de ajudar os prisioneiros e ele achara a vida no campo tolerável, mas mais tarde ‘eles’ insistiram em que cooperasse em alguns dos experimentos cirúrgicos horríveis que foram realizados nos internos, e quando ele se recusou a faze-lo, eles executaram-no. Ele contou-nos que ao redor de Dachau ainda hoje paira uma atmosfera de infelicidade, angústia e de maldade por causa das coisas que lá foram feitas. Quando interrogado sobre a sua vida do outro lado, o Dr. Franck disse-nos que ainda era médico mas que agora tratava almas ajudando-as a livrar-se a elas próprias das velhas ideias estagnantes, do medo, do ódio e dos preconceitos que lhes impediam o progresso espiritual. Antes de nos deixar o Dr. Franck disse: “As pessoas na Terra deviam perceber que assim como um homem pensar assim será, e que pelos pensamentos e acções que tiverem desse lado da vida assim criarão o seu próprio céu ou o seu próprio inferno aqui.”
Em 1963 o escândalo Profumo abalou a nação e Stephan Ward, um osteopata elegante e um artista de certo talento foi julgado no Old Bailey por acusações decorrentes do caso. Enquanto ainda se encontrava sob fiança e antes do veredicto ou da sentença ser pronunciada, Ward tirou a própria vida. Eu jamais conhecera Stephan Ward nem nenhum dos seus amigos íntimos, os níveis sociais em que nos movíamos distanciavam muito entre si para isso e eu nada sabia dele aparte do que tinha lido ou ouvido nos meios de comunicação de massas. Tanto mais fiquei por isso surpreendido quando breve após a sua morte solitária e lamentável Stephan Ward foi trazido a falar no eu círculo familiar. Num sussurro tenso e rouco Ward disse que se arrependia da maneira como passara mas que tinha a consciência limpa em relação aos crimes de que a sociedade o acusava: “Eu cometi erros, fui vaidoso e insensato, mas não fiz as coisas que disseram que fiz e devia ter aguentado aí até ao fim.”
Não muito após esse primeiro comunicado, Stephen Ward voltou para falar no meu círculo e desta vez a voz dele mostrava-se mais forte e ele foi capaz de falar por um período mais longo. Uma vez mais expressou arrependimento pelo ‘lance que fez’ mas disse que sentira uma rede de mentiras a fechar-se ao seu redor, a apontar a sua culpa quando ele estava inocente de tudo excepto um desejo louco e esnobe de estar na moda. Disse-nos que mantivera a boca fechada para proteger aqueles por cujas faltas ele estava a enfrentar o tribunal, e que eles o tinham abandonado e traído. “Foi uma coisa suja,” disse ele, “eu fui o bode expiatório num negócio que era basicamente político, mas por trás do qual estava algo mais sinistro.” Ele disse que o seu suicídio não resolvera os seus problemas mas que os tornara mais difíceis de suportar e falou de uns escritos que tinha deixado para trás, para publicar. Parecia pensar que viriam a ser suprimidos em Inglaterra mas que poderiam ser publicados noutro país em pouco tempo.
De facto creio que alguns dos escritos de Stephan Ward tenham sido publicados em França logo após esta reunião. Ward continuou a falar no meu círculo familiar de tempos a tempos e eu sou capaz de dizer que ele progrediu espiritualmente a ponto de se perdoar por não ter aguentado até ao fim’ e não mais carrega o ressentimento em relação aos amigos que o abandonaram na hora do aperto.
Ethel e Alfred Scarfe que viviam em Ipswich tinham vindo a participar comigo há algum tempo e a enviar gravações das suas sessões para inquiridores da mesma maneira que George Woods e Betty Greene tinham vindo a fazer fazia tempo. Em janeiro de 1964 o Sr. e a Srª Scarfe foram contactados por uma alma evoluída que lhes disse que fora certa vez monge num grande mosteiro situado no local que actualmente é conhecido pelo nome de Bury St. Edmunds. Ele disse-lhes para o tratarem por Irmão Bonifácio e descreveu-se como ‘algo rebelde’ no seu tempo. Desde essa altura o Irmão Bonifácio conversou com os Scarfes em muitas ocasiões e sempre de forma fluente e uma fraseologia bela da qual só me posso maravilhar. Discorre sobre todo o género de questões morais e um dos seus temas recorrentes é a maldade da discriminação com base na raça, na cor na classe ou no credo.
Quando o meu velho amigo Padre Sharp morreu em 1960, ele encontrava-se com 94 anos de idade, mas ele jamais deixara de esperar que um dia o sonho corajoso da Confraria se tornasse realidade e o Espiritualismo fosse levado para o âmbito da Igreja Estabelecida. Um dos mais dolorosos desapontamentos da sua vida foi a supressão pelo então Arcebispo de Canterbury do Relatório sobre o Espiritualismo produzido por uma Comissão de clérigos que tinham passado muitos meses a investigar as suas alegações. Essa Comissão tinha sido montada pelo falecido Dr. Cosmo Lang quando ele era Arcebispo de York, mas quando ele se tornou Primaz da Inglaterra suprimiu as descobertas da sua própria Comissão que por veredicto maioritário tinha chegado à conclusão de que as alegações do Espiritualismo de comunicar com os mortos por intermédio de pessoas especialmente dotadas eram verídicas.
Lorde Cosmo Lang morreu em 1945 e um ano mais tarde falou sobre o Padre Sharp no nosso círculo familiar por intermédio da minha mediunidade. O que ele teve a dizer foi o seguinte: “Se ao menos pudesse voltar a viver a minha vida com o conhecimento que agora possuo, e como teria agido de modo diferente. Podia ter feito tanto, mas eu receava.” E prosseguiu falando dos milhares de jovens almas que se precipitam no mundo seguinte, no decurso da guerra, ressentidos por a Igreja não lhes ter ensinado que a morte não é o fim e que pode ser estabelecida uma ponte entre ambos os mundos.
Cosmo Lang falou numa outra ocasião na minha sala de sessões em que os presentes eram George Woods e Betty Greene. Em 1959 foi isto que ele disse: “Sinto fortemente que o Espiritualismo é de tal importância que todos deviam saber disso, mas também sinto ser perigoso se for usado da forma errada. Creio ser importante que colégios e sociedades sejam organizadas onde os médiuns possam ter abrigo e nutridos enquanto são treinados de maneira adequada para fazer da sua mediunidade vocação do mesmo modo que o faz alguém que vá para sacerdote e abre mão de toda a sua vida para isso, e afastando-se do mundo, mas ainda se encontram no mundo e o servem. Se tiverem que contactar as forças superiores, as forças do bem, aquelas que podem elevar a humanidade, precisareis ter médiuns ou instrumentos que tenham mentalidade e ideias idênticas e de vibração espiritual, mas parece-me a mim que alguns dos vossos médiuns são infelizmente de baixo nível. Não quero que pensem que o condeno, longe disso, estou ansioso por ajudar. Acho que só quando o Espiritualismo for usado da maneira apropriada com médiuns de um nível mental e espiritual elevado que abra mão das coisas materiais num verdadeiro serviço a Deus, que se considerem meros instrumentos do poder divino para servir os filhos da terra, isso poderá ser verdadeiramente benéfico para a humanidade. Parece-me a mim que enquanto estiverem somente a arranhar a superfície dos mundos astrais, coisa que noventa por cento dos vossos instrumentos parecem estar a fazer, então o Espiritualismo será não somente mau com poderá ser mesmo perigoso, por o semelhante atrais o semelhante.
Entidades dos mundos inferiores que se agarram à Terra podem fazer uso dos médiuns e por intermédio deles contar coisas às pessoas que não são verdadeiras e que podem ser causa de muita infelicidade e miséria. Mais perigosos ainda, os resultados de tais sessões podem traduzir-se por obsessões por parte de entidades inferiores que os podem causar distorção e distorcer a verdade. É muito importante que ao vos reunirdes devam escolher o vosso instrumento cuidadosamente e conduzir-se de forma correcta. Que devam primeiro abordar Deus não só quando oram mas nas vossas vidas esforçando-vos por fazer dela uma oração viva tanto na acção como no pensamento.”
O anterior Primaz continuou dizendo o quanto a Igreja de hoje andava à deriva e se tinha desviado da sua doutrina original e da sua força original do bem e se desviara do caminho simples que Jesus tinha preparado. Disse que muito da doutrina do Espiritualismo constituía a essência da Igreja Primitiva, daqueles Cristãos que se reuniam e que eram possuídos pelo poder do Senhor e sobrepujavam a carne e abriam mão de tudo para seguir a Jesus. E concluiu: “Se a grande verdade da sobrevivência fosse demonstrada e tornada manifesta no melhor sentido e mais verdadeiro, todo o mundo poderia ser mudado para melhor.”
As observações críticas que o anterior Lorde Lang fez em relação à mediunidade de hoje não são destituídas de fundamento. Em anos recentes o Espiritualismo chegou a depender cada vez mais na mediunidade mental para se fazer provar e conquanto tenha havido muitos clarividentes e clariaudientes maravilhosos e médiuns de transe no passado, a mediunidade mental de hoje, com poucas excepções notáveis, não é de elevado nível. Exceptuando possivelmente na privacidade dos círculos familiares a mediunidade de carácter físico (manifestação) à semelhança do meu próprio dom de voz directa ou do dom da materialização pelo qual os espíritos se podem materializar nas formas que reconhecidamente tenham sido as suas em vida, sólidas ao toque e capazes de falar, é praticamente não existente.
Em Agosto de 1967 Cosmo Lang voltou a falar, desta vez no meu próprio círculo familiar, e eu gostaria de citar um excerto da fita de gravação que fizemos do seu discurso: “O estudo da raça humana desde tempos imemoriais é em si mesmo uma lição objectiva para todos, porém, atendemos às lições que aprendemos, não vemos o presente no passado, mas que será o presente senão o resultado de eventos passados, erros passados, loucuras passadas? O homem tem voltado as suas costas há séculos à verdade e não vê que dentro dele próprio no mais recôndito da sua alma se encontra a verdade suprema, a verdade indestrutível de que o homem é verdadeiramente o Espírito e assim imortal.
Muita vez recordo os meus primeiros anos e como com entusiasmo eu encetei o caminho da instrução e da experiência religiosa. Quanta vez não falei do púlpito aos muitos que se tinham reunido para ouvir a palavra de Deus, e me esforcei por disseminar a verdade como eu a via e achava que a conhecia. Ao me voltar para trás, vejo que o que me faltou foi simplicidade e conhecimento do poder do Espírito dentro. Se ao menos tivesse visto o que subjazia à doutrina não só de Jesus mas de muitos dos Profetas e dos grandes reformadores e mestres dos primeiros tempos. Se pudesse ter percebido o fio dourado que corre desde os primeiros tempos por todas as grandes religiões e tivesse percebido que esse fio uno constitui a base de toda a verdade, que todos os homens são do Espírito e fazem parte do grande plano, e que toda a vida, não obstante a forma que adopte é indestrutível, e que mesmo as criaturas inferiores da terra têm o seu lugar e o seu propósito não só no vosso mundo como também no nosso.
O homem muita vez pensa no Espírito como dotado de forma ou como uma glória que vem depois da morte, mas o Espírito não é nada disso. É a verdadeira força que anima tudo quanto vive na forma humana, tudo na natureza, e todas as manifestações da vida pelo universo. É a força, o poder, a vibração da vida e por toda a vida fazer parte do mesmo Espírito é indestrutível. Enquanto vivem na Terra encontram-se no mesmo cumprimento de onda, vibração ou frequência que tudo ao vosso redor e assim os vossos sentidos físicos percebem o que os rodeia como reais e sólidos. Mas a ciência disse-lhes que nada na terra é real nem sólido, que as cadeiras em que se sentam agora parecem-lhes sólidas mas na verdade são redes abertas de cargas eléctricas que rodopiam ao redor de núcleos centrais numa frequência que é a mesma que a vossa. Quando morrerem continuarão a viver no vosso duplo espiritual mais subtil, que é frequentemente chamado corpo astral, que vibra numa frequência mais elevada do que o vosso corpo físico. Esse corpo astral encontra-se na mesma faixa de vibração que o plano da existência que irão habitar após a morte e por isso tudo nesse plano lhes parecerá igualmente real e sólido como certa vez na terra os arredores lhes pareceram ser.”
Por vezes o corpo astral é projectado do seu revestimento físico durante a vida de uma pessoa. Essa projecção pode suceder involuntariamente em resultado de um choque, ou sob anestesia ou hipnose, mas certas pessoas dominam a técnica de se projectar à vontade. Aqueles que passaram pela experiência de se encontrar ‘fora’ num outro corpo, dizem que o corpo em que se separam se acha ligado ao físico por um cordão pulsante de luz dourada que se alonga como o ‘duplo’, e se afasta da forma física. Dizem que conseguem ver o seu outro corpo deitado inerte onde quer que a projecção ocorrer, numa cama, num sofá, ou mesmo sentado numa cadeira. Por vezes dão conta de terem sentido enorme relutância em retornarem ao corpo físico por se sentirem tão leves e tão vivos nesse ‘duplo’. Enquanto se acham ‘fora’  não sentem dificuldade em passar pelas paredes simplesmente e que pelo mero pensar no local onde querem ir dão por si lé. Alguns que passaram pela experiência descreveram como, quando tentam pegar em objectos materiais, descobrem que as suas mãos atravessam os objectos.
Em raras ocasiões aconteceu uma pessoa ainda viva ter falado na minha sala através da minha mediunidade, e quando o presente exclama assombro de que essa tia ou primo ou amigo ainda se encontre na terra, geralmente um débil sussurro desvanece-se. Quando presente a meu pedido inquire o comunicador vivo, tem sido descoberto que esse comunicador se encontra quer doente quer em coma, ou profundamente adormecido na altura da tentativa de manifestação. A conclusão parece irresistível de se tratar da contraparte espiritual, corpo astral ou duplo ectoplásmico que terá procedido à comunicação enquanto o corpo físico se encontrava inconsciente e desconhecedor.
Talvez eu devesse terminar a minha história com um extracto tirado de uma gravação de uma palestra dada por um espírito que deu o nome de Pierre somente. Eis o que ele disse:
“Porque será que o Espiritualismo não varreu todo o mundo e mudou a face da vida no vosso mundo? Por o Espiritualista médio ainda não ter começado a perceber o que significa ser um verdadeiro Espiritualista no sentido verdadeiro, de modo a preparar-se a dar de si em amor e no serviço a Deus, percebendo que o poder que flui do Espírito ode não só mudá-lo a si mesmo mas por intermédio dele possivelmente todo o mundo. Há muitas religiões diferentes no vosso mundo, muitas ideias e pensamentos conflituosos e confusos, mas há apenas uma verdade, e essa é a verdade da vida eterna, de que todos os que morrem, vivem, e de que aqueles que vêem deste lado da vida e verdadeiramente desejam o bem-estar da humanidade se preocupam por encontrar almas por aqui e por ali que possam ser usadas como instrumentos no mais elevado dos sentidos. É por isso que temos a intenção de proteger este instrumento, por haver tão poucos dessa fibra e qualidade. Protegeremos este maravilhoso canal que construímos ao longo dos anos até mesmo dele próprio. As pessoas pensam que um médium seja como uma máquina, que colocam a moeda na ranhura e que automaticamente a máquina comece a trabalhar. Não é assim. Qualquer médium reunir-se a toda a hora e por capricho deste ou daquela seria perigoso e fútil, mas nós protegemos cada vez mais este médium e não só esperamos que faça cada vez menos, como temos a intenção de lhe conservar o poder de modo a poder ser usado somente para obter comunicações de valor para todo o mundo.
Leslie Flint
Tradução: Amadeu Duarte